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CAPÍTULO
1
COMO
TUDO COMEÇOU
Oi, o meu
nome é LOBO, mas podem me chamar de Bélio, que é o nome
que eu mais gosto e atendo melhor.
Eu
sou um lindo SRD, com uma pinta indiscutível de Pastor Alemão,
e vou contar minha história para vocês.
Tudo
começou em um dia lindo, quando eu nasci e minha mamãe me
lambeu inteirinho... Essa parte é tão comum, que vou até
pular, afinal, ninguém quer ler o que já sabe, não é mesmo?
Pois
a minha vidinha mesmo começa quando fui adotado por um rapaz
muito bravo, que queria que eu fosse bravo também, para
proteger a casa dele. Bom, bravo eu sou mesmo, mas ele me
batia muito, eu comia pouco e puxa vida! Como a vida parecia
bonita lá fora... Eu ficava grudado no portão de casa, e
vinham outros cachorros e contavam tudo o que acontecia
por essas ruas, e eu ficava doidinho de vontade de sair.
Eu era um adolescente, ora essa, quem é que nunca foi adolescente
e sentiu vontade de curtir a brisa no rosto, a sensação
plena de liberdade, a doçura do sol que aquece as manhãs...
E foi num dia assim, cheio de sol e de brisa suave que eu
resolvi sair de casa. Fugi mesmo. O meu dono gritou, correu
atrás, mas não adiantou: eu já era um adolescente forte
e rápido, e queria muito me divertir. Mamãe diz até hoje
que quando eu coloco alguma coisa na cabeça, nada me faz
desistir, e é verdade. E naquele dia, eu tinha decidido
que não ficaria naquela casa nem um dia mais. Fugi. Corri
como o vento. Alguns carros tentaram me pegar, mas eu era
mais rápido, mais esperto, mais ágil que eles. Escapei por
pouco várias vezes, e se a mamãe algum dia ler isto, vai
ficar com o coração na mão, só de saber quantas vezes estive
perto de ser atropelado. Mas a Vida falava mais alto, e
eu segui em frente, correndo, sentindo o sol, a brisa, o
vento, a felicidade me inundando...
E
veio a noite. A primeira fora de casa. Pensa que eu fiquei
com medo? Fiquei nada! Eu era grande, um gigante! Era forte,
nada podia comigo. A noite estava fresca, não era frio,
nem muito calor, era só encontrar um canto para me encostar.
Aí eu me lembrei: meu estômago doía... Eu tinha fome! Muita
fome! Na emoção do dia, tinha me esquecido de comer... E
na pressa de fugir de casa, não tinha sequer embrulhado
um lanchinho para mim... Nossa, como isso era terrível!
Comecei a andar à toa, devagar, farejando, procurando o
que comer. Cheguei a sentir saudade do meu dono, aquele
que me batia, mas me dava comida. Tentei voltar para casa,
mas o caminho já não era conhecido, não consegui me orientar.
Resolvi dormir num canto, quem sabe a fome não passasse,
e amanhã...
Acordei
com mais fome ainda. Tentei procurar alguma mão amiga, mas
as pessoas tinham medo de mim. Fui ficando cada vez com
mais fome, e já não sabia o que fazer. Foi aí que eu vi
o Mike. Ele era um vira-lata de rua, nunca tinha tido dono,
conhecia as ruas desde que tinha nascido. Eu já tinha feito
amizade com ele no portão de casa, e agora estava entre
amigos! Com ele eu aprendi a fuçar o lixo, a rasgar os sacos
à procura de um bom pedaço de frango, a comer daquilo que
caía no chão. Era muito ruim, às vezes eu ficava com dor
de barriga, e comia matinhos para ajudar a acalmar a dor,
mas a liberdade valia isso... Andei muito, corri bastante,
conheci algumas cadelinhas fantásticas (mas isso eu não
vou contar não, vai que a mamãe lê isso, é melhor eu deixar
esses segredos guardados...). Mas fui começando a me cansar
dessa vida de boêmio. Comecei a ver que alguns cachorrinhos
tinham casa, comiam bem, eram bem tratados, tinham até carinho...
Mas quem é que ia querer um cachorro grande como eu? Geralmente
as pessoas procuram filhotinhos, engraçadinhos, de raça
pura, vendidos a preços exorbitantes... e eu era só um cachorro
de rua, um cão sem dono, sem eira nem beira...
CAPÍTULO
2
UM
DIA MUITO ESPECIAL
Eu
já estava nas ruas havia algum tempo, meio sem destino,
e já tinha me acostumado a ver as pessoas fugindo de mim,
algumas me jogavam pedras para que eu me afastasse, e cachorrinhos
esnobes passeando na coleira com seus donos, cheios de si,
me provocando à distância. Eu não ligava muito, afinal,
eu é que tinha escolhido essa vida... Já não me parecia
tão boa, mas o que é que eu ia fazer?
Foi
então que uma noite veio aquele cãozinho idiota. Já fazia
alguns dias que ele passava por mim me provocando, mas aquela
noite eu não ia deixar barato. Esperei na esquina, eu sabia
que mais cedo ou mais tarde ele iria passar por ali. E quando
ele passou por mim, me provocando, eu ataquei. Ele era muito
menor, mas valente, e tentou se defender. Eu ia acabar com
ele ali mesmo, quem ele pensava que era, me provocando assim,
todos os dias, me xingando, achando que era o dono da rua?
A rua era minha, e não dele, aquele pequeno monte de pelos
de coleira... Ah, foi uma briga das boas, mas o dono dele
estava lá, e logo encontrou um pedaço de pau para me bater
e me afastar. Apanhei muito, não teve jeito... Tive que
fugir. Com o corpo todo dolorido, fui andando. A noite estava
boa, mas eu já nem sentia, estava cansado e dolorido. Queria
encontrar um canto. Mas algo me dizia que minha vida solitária
estava por terminar. Continuei vagando por aqueles quarteirões
desertos até ver o dia clarear. Sabia que o pequeno monte
de pelos morava ali por perto, e portanto eu não podia parar
em qualquer lugar. Ele poderia me encontrar e se vingar
enquanto eu estivesse dormindo.
Então,
avistei aquela casa. Estava com a garagem aberta, e tinha
um carro lá. O carro estava quietinho, achei que poderia
ficar escondido ali. O silêncio da casa dizia que todos
dormiam. Resolvi entrar, mesmo sabendo os riscos que corria.
Deitei atrás do carro, e adormeci profundamente. Sonhei
com lugares lindos, campos verdes, uma mão gostosa me acariciando,
senti saudades da minha mamãe, aquela que primeiro me viu.
Ela me amava, ela saberia cuidar de mim... Droga, como eu
me arrependi de ter fugido! Acordei com um homem alto passando
perto de mim. Levei o maior susto, achei que ele fosse me
bater. Rosnei o mais bravo que pude, mas acho que ele percebeu
que eu estava mais assustado do que bravo, e falou manso
comigo. Ele chamou um monte de gente lá de dentro da casa,
e todo mundo foi me ver. Aí, ele tirou o carro, e eu vi
que a garagem era grande. Eles fecharam o portão. Será que
eles iam me trancar, me bater? Eu estava pronto a me defender
a qualquer preço, custasse o que custasse.
Veio
uma mulher, com cara de boazinha. Ela estava com medo, pude
ver em seus olhos. Mas mesmo assim chegou perto de mim,
falou baixinho. Me chamou, passou a mão na minha cabeça.
E trouxe um prato, com leite e pão. Nossa, como eu tinha
saudades desse gosto. Era uma delícia. E depois veio outro
prato. Eram restos, como eu comia na rua, mas muito mais
gostosos. Não eram como os restos que eu costumava comer,
com gosto meio azedo, que me davam dor de barriga. Eles
tinham gosto gostoso, sabor de verdade...
Comi
tudo. Aí senti o cansaço bater mesmo. Fui me deitar no fundo
da garagem. Dessa vez, nem sonhei. Estava tão cansado, tão
triste... Sabia que mais cedo ou mais tarde teria que sair
por aí, voltar à minha vida na rua. E à noite, o portão
ficou aberto para eu sair. E eu entendi que tinha que ir
embora. E fui.
Mas
ainda estava machucado, então não fui longe. Andei um pouco,
mas a solidão veio, a tristeza e o medo, pela primeira vez,
chegaram perto de mim. E eu voltei para aquela casa. Quem
sabe o portão ainda estivesse aberto? Quem sabe eles me
quisessem por lá?
Mas
o portão estava fechado. Cansado, cheio de dores, dormi
ali mesmo, na frente do portão, vendo a casa lá dentro cheia
de gente, felizes, acho que já tinham me esquecido. Dormi,
um sono profundo, pesado, sem sonhos.
Acordei
assustado, com pessoas falando alto perto de mim. Será que
estavam tentando me capturar? Será que eu ia ser pego? Me
levantei rápido, ainda meio atordoado de sono, procurando
me defender.
Não
era nada disso; o portão estava se abrindo. Eram as crianças,
pratinho com leite e pão. Café da manhã!!! Era sorte demais
para um cachorro como eu. Uma mão pequena em mim, me afagando,
delícias que eu não conhecia...
Nesse
dia, fiquei dentro do portão, com as crianças sempre me
visitando, passando a mão em mim. Traziam comida, e viram
que eu estava machucado. Trouxeram um homem grande de branco
para me ver. Fiquei com muito medo. O Mike já tinha me avisado
que o Homem de Branco é aquele que leva a gente embora e
nunca mais traz de volta. Fiquei ressabiado. Ele pôs a mão
em mim, me examinou inteirinho, falou muito com as pessoas
do portão. Eles saíram, mas voltaram com umas coisas para
passar nos meus machucados. Doíam, mas eu nem podia reclamar.
Eles pareciam tão bons, acho que não iam me maltratar. Ainda
essa noite o portão ficou aberto. Saí de novo, mas alguma
coisa dentro do meu peito me fez voltar. E dormi dentro
do portão. Acho que alguma coisa ia acontecer...
CAPÍTULO
3
UMA
FAMÍLIA, ENFIM!
E
o tempo passou. Aquela família me adotou de vez. Cuidaram
de mim, me trataram como um rei. Ganhei comida, carinho,
conforto, nome! Agora eu tinha um nome! Eu era o Lobo, o
protetor da casa. Eu tinha um dever a cumprir! Eu tinha
que proteger a minha família. Agora eu tinha a Mamãe, o
Papai, o André, o Fábio, a Cecília. Eu tinha uma responsabilidade
enorme, mas valia a pena. Eu tinha carinho, amor, coisas
que eu nunca tinha visto antes. Dormia protegido, passeava
pela casa.
Ganhei
amigos, amigos diferentes, humanos, que adoram passar a
mão em mim, falar comigo, me acariciar. O Mike às vezes
passa por aqui, fica admirado da mudança. Ele já está velho,
acho que logo vai embora. Ele nunca quis fazer a troca que
eu fiz.
Fiquei
maior um pouquinho, claro, comendo bem, só podia crescer
mesmo. Meu pelo ficou maravilhoso, e aquele cãozinho idiota
mora aqui perto, e continua passando em frente da minha
casa de vez em quando. Eu não gosto nadinha dele, mas aqui
ele não entra. E se tentar, ele vai ver só!
Mas
às vezes eu penso que não deveria ter raiva dele assim,
pois foi por causa dele que eu encontrei minha família,
que eu vim parar aqui...
Aqui
eu tenho tudo o que eu já tinha ouvido falar em histórias
na rua, pratinhos cheios de comidinha, ração na hora certa,
beijinhos no fuço, escovação, às vezes dormir dentro de
casa (só quando o Papai se distrai, e a minha maior cúmplice
para isso, a Cecília, deixa...). Biscoitos de montão (rapaz,
esses são gostosos mesmo, acho que eu poderia comer uma
caixa inteira deles), algumas frutas (eu não sou muito chegado,
ainda bem que ninguém me obriga a comer o que eu não gosto!),
de vez em quando um leitinho aguado (lembra daquele moço
de branco, então, o nome dele é Tio André Veterinário –
que nome comprido, né, o meu é bem mais legal –, pois ele
disse que eu só posso tomar leite com bastante água, para
não me deixar com dor de barriga), pão (putz! Esse aí é
bom demais!!!!), e sempre que as crianças deixam, a Mamãe
me dá alguma guloseima depois da janta. Mais que isso, eu
vou passear todos os dias (geralmente com o Papai) à noite.
A única coisa que o Papai não entende é que eu preciso andar
logo, cheirar tudo, e ele fica me segurando com aquela corrente,
eu puxo mesmo! Quem sabe assim ele solta. Sabe que eu nunca
perdi a minha veia boêmia, e de vez em quando eu até tento
escapar, mas não resisto, volto sempre...
Aprendi
um montão de coisas, principalmente que para viver em casa
a gente precisa ter algumas regras, como não pegar comida
da mesa, sentar para esperar a comida, a dar a patinha,
deitar, sentar na cadeira...
Aprendi
a mostrar direitinho para todos aqui em casa o que eu quero;
no começo foi difícil, eu falava, falava, e ninguém me entendia.
Mas aos poucos a gente foi entrando numa sintonia legal,
e hoje, a gente se entende às mil maravilhas.
Depois
que eu me acomodei vivi ainda muitas aventuras, aprontei
umas poucas e boas, e vou contar todas para vocês.
Mas
não agora. Agora eu tenho que tomar meu café da tarde. E
cochilar ao sol depois. E tirar uma soneca no sofá com a
Mamãe. Quem sabe amanhã...
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