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RIO DE JANEIRO - Já
me perguntaram e eu mesmo me pergunto qual seria a imagem
mais completa e dramática do abandono, da desgraça,
da miserabilidade. Respondo aos outros, mas nem sempre tenho
coragem de responder a mim: a do cão cego e sem dono.
Ou pior: a do cão sem dono e cego.
Deve parecer exagero atribuir
a um cão um dos atributos mais comuns à espécie
humana. Mas o homem tem sempre uma alternativa, a de acabar
com tudo quando nada mais suportar. Já disseram que
o único problema que realmente enfrentamos é
o suicídio, uma capacidade que os animais não
têm, exceto, segundo já me disseram, mas não
tenho certeza, o escorpião.
Além de dispor de
uma saída radical para a miséria e o abandono,
o homem é responsável, até certo ponto,
pelo seu destino. Há sempre uma esquina errada que
ele dobrou pela vida afora e cujo preço pagará
inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde.
O cão sem dono e cego
é uma coisa viva e sofredora, sem apelação,
pior do que inútil e desgarrado, pior do que desesperado,
pois adquire a mansa lucidez de sua tristeza, de seu abandono,
e desconfia de que nada possa mudar o seu destino.
À esta altura da crônica,
antes que o possível leitor me faça, faço
eu mesmo a pergunta: por que estou escrevendo um texto tão
triste, tão despropositado e, acima de tudo, tão
discutível? Afinal, eu não sou cego, ainda
não cheguei ao ponto de me considerar um cão
e tenho muitos donos, donos demais. De que estou reclamando?
Não sou pago para escrever sobre um assunto que nem
merece a condição de assunto. Mas escrito
está.
Ontem, esbarrei
com um cão sem dono e cego, que mancava de uma das
patas, os olhos vazados não me viram, mas ele deve
ter sentido o meu cheiro, a minha catinga humana. Vagava
sem rumo aqui na Lagoa. Não o trouxe para casa. Quem
é mais miserável?
Folha
de São Paulo, 16/10/2003

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