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Entre passos de dança
e muitos sorrisos, Silvia Trkman comemorava a sua maior
conquista no Agility, vencendo o Campeonato Mundial na categoria
Midi Individual. E para não deixar dúvidas
de sua competência, fez a dobradinha na prova de Jumping,
com La (Simply The Best) em primeiro lugar e Lo (Vedette)
em segundo. "Foi muito bom. La realmente mereceu
o título de Campeã Mundial",
conta. Para essa condutora de 23 anos, nada mais justo.
"No Agility, meus cães vêm antes
de qualquer coisa", declara.

Agiliteiros.com:
Como começou a sua história no Agility?
Silvia Trkman: Soube pela primeira vez sobre o esporte
em 1989, em uma revista de cães da Eslovênia.
A matéria era sobre a primeira apresentação
de Agility em meu país e já naquele momento,
eu queria praticar. O problema era que eu tinha 10 anos
de idade e meus pais não deixavam eu ter um cão,
apesar de querer desde pequena. Só que eu sempre
consigo o que eu quero e aos 11 anos, comprei um filhote
de Samoieda, então a raça dos meus sonhos.
Foi em um pet shop, com o dinheiro que economizava da mesada,
e contra a vontade de meus pais. Seu nome é Aiken
e era o pior filhote que uma criança de 11 anos podia
ter: teimoso, independente, dominante, um cão alfa
e mais forte do que eu. Foi com ele que comecei a treinar,
passava duas horas no ônibus para ir ao único
clube de Agility que havia na cidade - e durante o treino,
Aiken me ignorava, preferia ir caçar pássaros
ou brincar com outros cães. Ele nunca demonstrou
nenhuma vontade de agradar outro que não a si mesmo,
mas com certeza foi o melhor professor que poderia ter.
Ele tirava proveito de cada pequeno erro e nunca esquecia
nada, muitas vezes me fez chorar, mas também me ensinou
a nunca desistir. Eu insisti e apesar de ninguém
acreditar que um dia ele pudesse terminar um percurso, ao
se aposentar era o Samoieda mais bem-sucedido da história
do Agility, campeão nacional em 1998, membro da equipe
nacional em 1997 e 1998 e o cão nórdico mais
bem colocado em todos os Campeonatos Mundiais. Ele está
com 13 anos e continua saltitante e cheio de energia.

Agiliteiros.com:
Com todo esse sucesso, você se tornou treinadora profissional?
Silvia Trkman: Mesmo sendo campeã mundial, aqui
na Eslovênia não é possível viver
apenas de adestramento! E nem quero isso, sou estudante
de filosofia e jornalismo na Universidade de Ljubljana,
estou terminando minha tese sobre crítica psicoanalítica
da sociedade moderna e vou continuar estudando psicoanálise
para meu mestrado. Nem penso em me profissionalizar em adestramento.
Agiliteiros.com:
Do Samoieda, você partiu para o Pastor dos Pirineus.
Por que escolheu a raça?
Silvia Trkman: Na verdade,
eu queria outro Samoieda, mas meus pais ficaram horrorizados
e só permitiriam outro cão se fosse de pequeno
porte. Então fui atrás de um cão de
pastoreio que não fosse o Sheltie, pois eles pareciam
sérios demais e eu gosto de cães sorridentes.
Folheando um livro sobre cães, fui seduzida pelo
Pastor dos Pirineus que sorria para mim no livro. Embora
me dissessem que era loucura querer tanto um cão
de uma raça totalmente desconhecida, em março
de 1997 trouxe para a Eslovênia o primeiro exemplar
da raça. Hoje em dia há cinco, sendo que duas
são minhas e faço o máximo para que
continue assim, pois são cães pequenos que
precisam de muito trabalho e socialização,
caso contrário podem ficar muito tímidos,
nervosos, latidores e mordedores compulsivos.

Agiliteiros.com:
Quais foram os critérios para a escolha de suas cadelas?
Silvia Trkman: Na vinda
de Lo, eu ainda não falava francês e isso foi
um fator limitante nas minhas possibilidades de escolha.
Optei por um filhote dos menores pais que encontrei, pois
queria um cão mini, embora fosse difícil já
que o padrão define a raça entre 38 e 48 cm.
Lo foi o primeiro exemplar da raça que vi pessoalmente
e era tão assustada que a princípio eu não
a queria, mas aí disse a mim mesma: "Se você
fez um Samoieda trabalhar, você pode lidar com essa
pastora". Ela era a única fêmea da ninhada
e como eu queria uma menina, não tive muita escolha.
Da segunda vez, antes de pesquisar os criadores, aprendi
a falar francês e então fui para a região
dos Pirineus. Em uma caminhada, conheci uma pessoa que trazia
um lindo Pastor dos Pirineus na guia e na semana que fiquei
por lá, ela me levou para conhecer todos os bons
criadores da região. Optei por uma filhotinha da
bela Pequelette, a cadela que mais tinha gostado. Um tempo
depois, porém, me dei conta que sonhava há
mais de cinco anos com uma cadela fulva (dourada) e então
fui a Paris para comprar um filhote dessa cor. Mas deu tudo
errado, um dia antes de buscá-la fiquei sabendo sobre
as novas regras de caudas e orelhas cortadas em eventos
caninos em alguns países europeus. Fiquei desesperada,
pois a minha reserva e todas as ninhadas que vi, inclusive
a de Pequelette, tinham caudas amputadas. Foi aí
que recebi a foto de três filhotes blue merle com
três semanas de idade e estava certa de que já
teriam caudas amputadas, mas como um dos filhotes parecia
com aquela da ninhada de Pequelette, resolvi ver. As chances
eram pequenas - 50% de ser fêmea - e bem menores de
ter a cauda íntegra, mas... Ela era uma menininha
perfeita, que o criador também achava perfeita para
mim. La foi escolhida por meio de foto e também não
tinha muita opção, pois os outros filhotes
já estavam vendidos.

Agiliteiros.com:
Como você vê sua evolução como
condutora?
Silvia Trkman: Realmente
não sei. Posso ver e sentir coisas, mas não
sei como descrever. Não me vejo nem como boa condutora,
sou lenta e tenho muitos problemas com concentração,
mas acho que sou uma boa treinadora, a ponto de treinar
um cão bem o suficiente para me fazer parecer uma
boa condutora. Ou seja, não sou uma boa condutora,
mas o cão é tão bem treinado que até
me faz parecer competente na condução!
Agiliteiros.com:
Que tipo de condução prefere?
Silvia Trkman: Eu acho
que o estilo depende muito do cão, os melhores condutores
são aqueles que sabem ouvir o cão e conduzem
conforme sua necessidade. Eu gosto do estilo dos franceses,
mas antes de mais nada é preciso ser veloz para se
sair bem e, em segundo lugar, ter um cão que suporte
um condutor que cruze tantas vezes pela frente. Lo é
muito sensível para esse tipo de condução,
eu tenho que me assegurar de nunca estar em sua trajetória.
Agiliteiros.com:
Há algo inaceitável em pista?
Silvia Trkman: Com certeza!
Sou contra qualquer tipo de violência contra todos
os tipos de criaturas - sim, sou vegetariana também!
Eu nunca fui severa com nenhum cão e nem permito
que meus alunos sejam rudes com seus cães. Esse é
um dos motivos pelos quais não permito guias nas
aulas. Tudo deve ser feito sem nenhum tipo de obrigação.
Agiliteiros.com:
Com que idade seus cães começaram a ser treinados
para o Agility? Com que idade eles começaram a treinar
nos obstáculos?
Silvia Trkman: Lo e La
pisaram pela primeira vez em uma pista com sete semanas.
Eu as deixei correr com cães mais velhos e, depois,
ficavam à distância observando-os treinar.
Foi assim que aprenderam a atitude: elas eram loucas por
Agility antes de saber o que era. Quando elas tinham a atitude
que eu queria, começaram a brincar entre os obstáculos,
eventualmente incluindo nessas brincadeiras túneis,
saltos com as varas no chão e o slalom, como se fosse
um corredor com as varas de lado. Não lembro exatamente
a idade. Quando achei que estavam prontas, eu as deixava
fazer um ou dois túneis, apenas para deixá-las
felizes. Acho que os obstáculos são uma parte
pequena e menos importante no Agility e nunca presto muita
atenção neles. Mas eu presto muita atenção
na atitude e na relação entre o cão
e o condutor. É algo que deve começar a ser
construído no momento em que trazemos o filhote para
casa e nunca tem fim.

Agiliteiros.com:
Com que idade elas começaram a competir?
Silvia Trkman: Foi com
a idade mínima, 15 meses. E tenho total certeza de
que a carreira no Agility não vai comprometer mais
suas articulações do que as brincadeiras,
pois treinamos muito pouco. Não creio em quantidade,
mas em qualidade e acho, também, que a repetição
exaustiva nos obstáculos é prejudicial. Alguns
Border Collies podem sobreviver a isso, meus cães
não.
Agiliteiros.com:
Quais os títulos que seus cães já conquistaram?
Silvia Trkman: Aiken foi
Campeão Nacional em 1998 e Lo é Campeã
Nacional desde 1999 (esse ano pela quinta vez). Ela também
teve vitórias em 12 países europeus, é
campeã internacional de Agility, campeã do
European Open e da IMCA em 2002. Com certeza um dos cães
de Agility mais bem-sucedidos da Europa. La é apenas
Campeã Mundial (risos)... É que ela não
esteve em nenhuma competição importante antes
disso.
Agiliteiros.com:
Quando você representou a Eslovênia pela primeira
vez fora do país? Como foi?
Silvia Trkman: Foi em
1996, no World Dog Show em Viena e Budapeste e, no ano seguinte,
no Campeonato Mundial. Nas duas ocasiões com Aiken
e, com ele, todo resultado era uma vitória. Conduzir
um cão que tinha sido um filhote tão problemático
era, por si só, uma grande vitória.

Agiliteiros.com:
Como você trabalha sua ansiedade antes e durante um
percurso?
Silvia Trkman: Eu não
lido muito bem com pressões, por isso eu costumo
explodir quando a competição é por
times. Quando a competição é individual,
eu não sinto tanto a responsabilidade. Nesse Mundial,
devido à pouca idade de La, entrei despreocupada:
ela ainda tem mais 10 mundiais pela frente. E mesmo que
ela não tivesse vencido, ainda assim seria simplesmente
a melhor para mim.
Agiliteiros.com:
O que faz antes de entrar em pista?
Silvia Trkman: Nada de
especial, a única coisa que tenho que fazer com Lo
é aquecê-la um pouco, ela não consegue
correr sem isso. Já La corre super rápido
a qualquer momento e em qualquer lugar!
Agiliteiros.com:
Você seguiu alguma rotina de treinos especiais para
o Mundial?
Silvia Trkman: Não.
Fizemos os treinos como sempre, de duas a três vezes
por semana, no total cerca de 45 minutos semanais. Treinamos
Agility propriamente dito, por cinco minutos e o resto do
tempo brincamos muito. Eu nunca tive um treinador e nunca
li um livro sobre Agility.
Agiliteiros.com:
Essa conquista foi uma surpresa completa para você?
Silvia Trkman: Totalmente.
E ainda assim, meu maior sucesso ainda é Aiken. Cada
percurso que terminava com ele era a maior conquista do
mundo. Com Lo tivemos boas vitórias, mas apenas na
grama. No carpete, ela derrapa mais do que os outros cães,
pois seus saltos são muito longos e por isso nunca
esperei nada dela nas provas no carpete. O único
motivo pelo qual ficou em segundo lugar no Jumping em Lievin,
foi porque o percurso me permitia "virá-la"
antes dos saltos e, assim, mais ou menos, evitar os escorregões.
Já La, eu sabia que poderia vencer, mas não
tão jovem! Estávamos lá apenas para
ganhar experiência e não imaginava que um cão
tão inexperiente pudesse vencer. Sem contar que nunca
entro só pela vitória, sempre tento dar o
melhor de mim, mas meu objetivo principal é a diversão.

Agiliteiros.com:
Sua vida mudou muito depois de Lievin?
Silvia Trkman: Nem tanto.
Eu passo mais tempo respondendo e-mails e tenho mais convites
para seminários, mas é só. O Agility
não é muito popular na Eslovênia. Só
pessoas que lidam com cães de performance é
que conhecem.
Agiliteiros.com:
Tem viajado muito para o exterior para dar esses seminários?
Silvia Trkman: Sim, ministro
mais cursos no exterior do que na Eslovênia. Fico
fora cerca de cinco meses por ano e, como sempre viajo com
minhas cadelas, tenho a oportunidade de praticar Agility
nos fins de semana. Lo já venceu provas em 12 países
diferentes. Nos últimos tempos, muitas na França.
Já dei cursos na França, Holanda e Bélgica,
e também assisti seminários de outros condutores
nesses países. Esse ano, estive nos Estados Unidos
para alguns seminários!
Agiliteiros.com:
Ainda há muitas coisas para consertar em seus cães
ou melhorar na sua forma de condução?
Silvia Trkman: Há
tanta coisa para melhorar. No dia em que eu pensar diferente,
vou parar de praticar Agility! É preciso melhorar
sempre e, antes de mais nada, melhorar a mim mesma. Minhas
cadelas não, elas são perfeitas! Lo perde
muito tempo por derrapar e ter medo de altura. Ela é
lenta nas zonas de contato porque tem pavor. Em casa sobe
e desce as escadas carregada e agradeço cada vez
que ela faz a passarela! Para ter uma idéia, levei
seis meses para que fizesse esse obstáculo! La não
tem grandes traumas, mas eu ainda tenho muita dificuldade
em conduzir um cão tão rápido. Logo,
o maior de todos os seus problemas sou eu!
Agiliteiros.com:
Qual é seu maior problema no percurso?
Silvia Trkman: Tudo acontece
tão rápido que a única coisa que tenho
em mente é "não esqueça o percurso"!
Em 2002, nosso time Midi teria ganho - havíamos vencido
a prova de Jumping - se eu não tivesse esquecido
o percurso com todas as zonas de contato já superadas...
Agiliteiros.com:
Sorte é importante?
Silvia Trkman: Acho que
sorte não tem nada a ver com o esporte. Você
pode cometer um erro devido a falta de sorte, mas não
vence por causa da sorte.
Agiliteiros.com:
Qual a idade de seus cães? Já pensa em preparar
outro cão? Gostaria de conduzir novamente um cão
sandard?
Silvia Trkman: Aiken tem
13 anos, Lo 7 e La 2. Por enquanto não penso em outros
cães, La ainda é filhote! Além disso,
não tenho condições de ter outro cão.
Daqui a uns três anos posso comprar outro Pastor dos
Pirineus. Não penso em ter um cão grande,
pois meu carro é pequeno e serve como hotel em várias
das viagens e é melhor dividir o espaço com
um cão pequeno. Se não fosse isso, até
poderia ter um cão maior, quem sabe um Briard ou
um Beauceron? Eu dou aulas de Agility em dois clubes, treino
cães de muitas raças diferentes desde filhotes
e muitas vezes os conduzo. Não acho mais difícil
conduzir alguns cães maiores do que os meus próprios.
Na verdade, é até mais fácil, tanto
a condução como o treino. Cada vez que vejo
um Border Collie nas aulas, eu me pergunto se sou louca
ou porque ainda não tenho um. Mas, novamente, não
estou no Agility pelos resultados...

Agiliteiros.com:
Como é a vida de seus cães em casa?
Silvia Trkman: Eles são
hiperativos, mas eu os amo por isso. Estão sempre
prontos para brincar, para uma longa caminhada e as cadelas
ficam enlouquecidas quando me vêem fazendo as malas.
Eu acho que elas amam as viagens muito mais do que eu. Vão
para todos os cantos comigo e, quando era filhote, La até
freqüentava a Universidade comigo. Meus cães
vêm em primeiro lugar e são meus melhores amigos.
Só tive três cães em toda a minha vida
e todos eles dormem comigo, no meu quarto.
Agiliteiros.com:
Além do Agility, que outras atividades seus cães
têm?
Silvia Trkman: Aiken foi
treinado também para Obediência, Flyball e
até um pouco de Schutzhund, mas paramos porque ele
odiava faro. Com Lo, treinei faro e também Flyball.
La aprendeu alguns truques como os do Freestyle, que é
um esporte canino que ainda não existe aqui na Eslovênia
e sobre o qual, confesso, não sei nada! Tudo que
ensinei para ela foi que, trabalhar comigo, é divertido
e alimenta seu cérebro superativo.
Agiliteiros.com:
Qual a melhor coisa do Agility?
Silvia Trkman: Acho que
o Agility é a melhor forma de construir uma relação
próxima com um cão, aprender mais sobre ele
e fazê-lo feliz. É também ter um ótimo
motivo para fazer as malas, pegar os cães e sair
de casa por dois dias, uma semana ou um mês. É
maravilhoso!


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