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Silvia Trkman
O melhor do Agility é estar com meus cães
O desejo de ter um cão mais controlável levou a eslovena Silvia Trkman ao Agility.
"A vontade de Aiken, meu samoieda, em fazer o que queria
era maior do que a de me obedecer", lembra.
O controle,ela confessa, nunca foi total, mas levou-a a conhecer um novo esporte
e adotar mais duas cadelas.
Com uma delas, sagrou-se campeã mundial.
por Adriana Mori

Entre passos de dança e muitos sorrisos, Silvia Trkman comemorava a sua maior conquista no Agility, vencendo o Campeonato Mundial na categoria Midi Individual. E para não deixar dúvidas de sua competência, fez a dobradinha na prova de Jumping, com La (Simply The Best) em primeiro lugar e Lo (Vedette) em segundo. "Foi muito bom. La realmente mereceu o título de Campeã Mundial", conta. Para essa condutora de 23 anos, nada mais justo. "No Agility, meus cães vêm antes de qualquer coisa", declara.

Agiliteiros.com: Como começou a sua história no Agility?

Silvia Trkman: Soube pela primeira vez sobre o esporte em 1989, em uma revista de cães da Eslovênia. A matéria era sobre a primeira apresentação de Agility em meu país e já naquele momento, eu queria praticar. O problema era que eu tinha 10 anos de idade e meus pais não deixavam eu ter um cão, apesar de querer desde pequena. Só que eu sempre consigo o que eu quero e aos 11 anos, comprei um filhote de Samoieda, então a raça dos meus sonhos. Foi em um pet shop, com o dinheiro que economizava da mesada, e contra a vontade de meus pais. Seu nome é Aiken e era o pior filhote que uma criança de 11 anos podia ter: teimoso, independente, dominante, um cão alfa e mais forte do que eu. Foi com ele que comecei a treinar, passava duas horas no ônibus para ir ao único clube de Agility que havia na cidade - e durante o treino, Aiken me ignorava, preferia ir caçar pássaros ou brincar com outros cães. Ele nunca demonstrou nenhuma vontade de agradar outro que não a si mesmo, mas com certeza foi o melhor professor que poderia ter. Ele tirava proveito de cada pequeno erro e nunca esquecia nada, muitas vezes me fez chorar, mas também me ensinou a nunca desistir. Eu insisti e apesar de ninguém acreditar que um dia ele pudesse terminar um percurso, ao se aposentar era o Samoieda mais bem-sucedido da história do Agility, campeão nacional em 1998, membro da equipe nacional em 1997 e 1998 e o cão nórdico mais bem colocado em todos os Campeonatos Mundiais. Ele está com 13 anos e continua saltitante e cheio de energia.

Agiliteiros.com: Com todo esse sucesso, você se tornou treinadora profissional?

Silvia Trkman: Mesmo sendo campeã mundial, aqui na Eslovênia não é possível viver apenas de adestramento! E nem quero isso, sou estudante de filosofia e jornalismo na Universidade de Ljubljana, estou terminando minha tese sobre crítica psicoanalítica da sociedade moderna e vou continuar estudando psicoanálise para meu mestrado. Nem penso em me profissionalizar em adestramento.

Agiliteiros.com: Do Samoieda, você partiu para o Pastor dos Pirineus. Por que escolheu a raça?

Silvia Trkman: Na verdade, eu queria outro Samoieda, mas meus pais ficaram horrorizados e só permitiriam outro cão se fosse de pequeno porte. Então fui atrás de um cão de pastoreio que não fosse o Sheltie, pois eles pareciam sérios demais e eu gosto de cães sorridentes. Folheando um livro sobre cães, fui seduzida pelo Pastor dos Pirineus que sorria para mim no livro. Embora me dissessem que era loucura querer tanto um cão de uma raça totalmente desconhecida, em março de 1997 trouxe para a Eslovênia o primeiro exemplar da raça. Hoje em dia há cinco, sendo que duas são minhas e faço o máximo para que continue assim, pois são cães pequenos que precisam de muito trabalho e socialização, caso contrário podem ficar muito tímidos, nervosos, latidores e mordedores compulsivos.

Agiliteiros.com: Quais foram os critérios para a escolha de suas cadelas?

Silvia Trkman: Na vinda de Lo, eu ainda não falava francês e isso foi um fator limitante nas minhas possibilidades de escolha. Optei por um filhote dos menores pais que encontrei, pois queria um cão mini, embora fosse difícil já que o padrão define a raça entre 38 e 48 cm. Lo foi o primeiro exemplar da raça que vi pessoalmente e era tão assustada que a princípio eu não a queria, mas aí disse a mim mesma: "Se você fez um Samoieda trabalhar, você pode lidar com essa pastora". Ela era a única fêmea da ninhada e como eu queria uma menina, não tive muita escolha. Da segunda vez, antes de pesquisar os criadores, aprendi a falar francês e então fui para a região dos Pirineus. Em uma caminhada, conheci uma pessoa que trazia um lindo Pastor dos Pirineus na guia e na semana que fiquei por lá, ela me levou para conhecer todos os bons criadores da região. Optei por uma filhotinha da bela Pequelette, a cadela que mais tinha gostado. Um tempo depois, porém, me dei conta que sonhava há mais de cinco anos com uma cadela fulva (dourada) e então fui a Paris para comprar um filhote dessa cor. Mas deu tudo errado, um dia antes de buscá-la fiquei sabendo sobre as novas regras de caudas e orelhas cortadas em eventos caninos em alguns países europeus. Fiquei desesperada, pois a minha reserva e todas as ninhadas que vi, inclusive a de Pequelette, tinham caudas amputadas. Foi aí que recebi a foto de três filhotes blue merle com três semanas de idade e estava certa de que já teriam caudas amputadas, mas como um dos filhotes parecia com aquela da ninhada de Pequelette, resolvi ver. As chances eram pequenas - 50% de ser fêmea - e bem menores de ter a cauda íntegra, mas... Ela era uma menininha perfeita, que o criador também achava perfeita para mim. La foi escolhida por meio de foto e também não tinha muita opção, pois os outros filhotes já estavam vendidos.

Agiliteiros.com: Como você vê sua evolução como condutora?

Silvia Trkman: Realmente não sei. Posso ver e sentir coisas, mas não sei como descrever. Não me vejo nem como boa condutora, sou lenta e tenho muitos problemas com concentração, mas acho que sou uma boa treinadora, a ponto de treinar um cão bem o suficiente para me fazer parecer uma boa condutora. Ou seja, não sou uma boa condutora, mas o cão é tão bem treinado que até me faz parecer competente na condução!

Agiliteiros.com: Que tipo de condução prefere?

Silvia Trkman: Eu acho que o estilo depende muito do cão, os melhores condutores são aqueles que sabem ouvir o cão e conduzem conforme sua necessidade. Eu gosto do estilo dos franceses, mas antes de mais nada é preciso ser veloz para se sair bem e, em segundo lugar, ter um cão que suporte um condutor que cruze tantas vezes pela frente. Lo é muito sensível para esse tipo de condução, eu tenho que me assegurar de nunca estar em sua trajetória.

Agiliteiros.com: Há algo inaceitável em pista?

Silvia Trkman: Com certeza! Sou contra qualquer tipo de violência contra todos os tipos de criaturas - sim, sou vegetariana também! Eu nunca fui severa com nenhum cão e nem permito que meus alunos sejam rudes com seus cães. Esse é um dos motivos pelos quais não permito guias nas aulas. Tudo deve ser feito sem nenhum tipo de obrigação.

Agiliteiros.com: Com que idade seus cães começaram a ser treinados para o Agility? Com que idade eles começaram a treinar nos obstáculos?

Silvia Trkman: Lo e La pisaram pela primeira vez em uma pista com sete semanas. Eu as deixei correr com cães mais velhos e, depois, ficavam à distância observando-os treinar. Foi assim que aprenderam a atitude: elas eram loucas por Agility antes de saber o que era. Quando elas tinham a atitude que eu queria, começaram a brincar entre os obstáculos, eventualmente incluindo nessas brincadeiras túneis, saltos com as varas no chão e o slalom, como se fosse um corredor com as varas de lado. Não lembro exatamente a idade. Quando achei que estavam prontas, eu as deixava fazer um ou dois túneis, apenas para deixá-las felizes. Acho que os obstáculos são uma parte pequena e menos importante no Agility e nunca presto muita atenção neles. Mas eu presto muita atenção na atitude e na relação entre o cão e o condutor. É algo que deve começar a ser construído no momento em que trazemos o filhote para casa e nunca tem fim.

Agiliteiros.com: Com que idade elas começaram a competir?

Silvia Trkman: Foi com a idade mínima, 15 meses. E tenho total certeza de que a carreira no Agility não vai comprometer mais suas articulações do que as brincadeiras, pois treinamos muito pouco. Não creio em quantidade, mas em qualidade e acho, também, que a repetição exaustiva nos obstáculos é prejudicial. Alguns Border Collies podem sobreviver a isso, meus cães não.

Agiliteiros.com: Quais os títulos que seus cães já conquistaram?

Silvia Trkman: Aiken foi Campeão Nacional em 1998 e Lo é Campeã Nacional desde 1999 (esse ano pela quinta vez). Ela também teve vitórias em 12 países europeus, é campeã internacional de Agility, campeã do European Open e da IMCA em 2002. Com certeza um dos cães de Agility mais bem-sucedidos da Europa. La é apenas Campeã Mundial (risos)... É que ela não esteve em nenhuma competição importante antes disso.

Agiliteiros.com: Quando você representou a Eslovênia pela primeira vez fora do país? Como foi?

Silvia Trkman: Foi em 1996, no World Dog Show em Viena e Budapeste e, no ano seguinte, no Campeonato Mundial. Nas duas ocasiões com Aiken e, com ele, todo resultado era uma vitória. Conduzir um cão que tinha sido um filhote tão problemático era, por si só, uma grande vitória.

Agiliteiros.com: Como você trabalha sua ansiedade antes e durante um percurso?

Silvia Trkman: Eu não lido muito bem com pressões, por isso eu costumo explodir quando a competição é por times. Quando a competição é individual, eu não sinto tanto a responsabilidade. Nesse Mundial, devido à pouca idade de La, entrei despreocupada: ela ainda tem mais 10 mundiais pela frente. E mesmo que ela não tivesse vencido, ainda assim seria simplesmente a melhor para mim.

Agiliteiros.com: O que faz antes de entrar em pista?

Silvia Trkman: Nada de especial, a única coisa que tenho que fazer com Lo é aquecê-la um pouco, ela não consegue correr sem isso. Já La corre super rápido a qualquer momento e em qualquer lugar!

Agiliteiros.com: Você seguiu alguma rotina de treinos especiais para o Mundial?

Silvia Trkman: Não. Fizemos os treinos como sempre, de duas a três vezes por semana, no total cerca de 45 minutos semanais. Treinamos Agility propriamente dito, por cinco minutos e o resto do tempo brincamos muito. Eu nunca tive um treinador e nunca li um livro sobre Agility.

Agiliteiros.com: Essa conquista foi uma surpresa completa para você?

Silvia Trkman: Totalmente. E ainda assim, meu maior sucesso ainda é Aiken. Cada percurso que terminava com ele era a maior conquista do mundo. Com Lo tivemos boas vitórias, mas apenas na grama. No carpete, ela derrapa mais do que os outros cães, pois seus saltos são muito longos e por isso nunca esperei nada dela nas provas no carpete. O único motivo pelo qual ficou em segundo lugar no Jumping em Lievin, foi porque o percurso me permitia "virá-la" antes dos saltos e, assim, mais ou menos, evitar os escorregões. Já La, eu sabia que poderia vencer, mas não tão jovem! Estávamos lá apenas para ganhar experiência e não imaginava que um cão tão inexperiente pudesse vencer. Sem contar que nunca entro só pela vitória, sempre tento dar o melhor de mim, mas meu objetivo principal é a diversão.

Agiliteiros.com: Sua vida mudou muito depois de Lievin?

Silvia Trkman: Nem tanto. Eu passo mais tempo respondendo e-mails e tenho mais convites para seminários, mas é só. O Agility não é muito popular na Eslovênia. Só pessoas que lidam com cães de performance é que conhecem.

Agiliteiros.com: Tem viajado muito para o exterior para dar esses seminários?

Silvia Trkman: Sim, ministro mais cursos no exterior do que na Eslovênia. Fico fora cerca de cinco meses por ano e, como sempre viajo com minhas cadelas, tenho a oportunidade de praticar Agility nos fins de semana. Lo já venceu provas em 12 países diferentes. Nos últimos tempos, muitas na França. Já dei cursos na França, Holanda e Bélgica, e também assisti seminários de outros condutores nesses países. Esse ano, estive nos Estados Unidos para alguns seminários!

Agiliteiros.com: Ainda há muitas coisas para consertar em seus cães ou melhorar na sua forma de condução?

Silvia Trkman: Há tanta coisa para melhorar. No dia em que eu pensar diferente, vou parar de praticar Agility! É preciso melhorar sempre e, antes de mais nada, melhorar a mim mesma. Minhas cadelas não, elas são perfeitas! Lo perde muito tempo por derrapar e ter medo de altura. Ela é lenta nas zonas de contato porque tem pavor. Em casa sobe e desce as escadas carregada e agradeço cada vez que ela faz a passarela! Para ter uma idéia, levei seis meses para que fizesse esse obstáculo! La não tem grandes traumas, mas eu ainda tenho muita dificuldade em conduzir um cão tão rápido. Logo, o maior de todos os seus problemas sou eu!

Agiliteiros.com: Qual é seu maior problema no percurso?

Silvia Trkman: Tudo acontece tão rápido que a única coisa que tenho em mente é "não esqueça o percurso"! Em 2002, nosso time Midi teria ganho - havíamos vencido a prova de Jumping - se eu não tivesse esquecido o percurso com todas as zonas de contato já superadas...

Agiliteiros.com: Sorte é importante?

Silvia Trkman: Acho que sorte não tem nada a ver com o esporte. Você pode cometer um erro devido a falta de sorte, mas não vence por causa da sorte.

Agiliteiros.com: Qual a idade de seus cães? Já pensa em preparar outro cão? Gostaria de conduzir novamente um cão sandard?

Silvia Trkman: Aiken tem 13 anos, Lo 7 e La 2. Por enquanto não penso em outros cães, La ainda é filhote! Além disso, não tenho condições de ter outro cão. Daqui a uns três anos posso comprar outro Pastor dos Pirineus. Não penso em ter um cão grande, pois meu carro é pequeno e serve como hotel em várias das viagens e é melhor dividir o espaço com um cão pequeno. Se não fosse isso, até poderia ter um cão maior, quem sabe um Briard ou um Beauceron? Eu dou aulas de Agility em dois clubes, treino cães de muitas raças diferentes desde filhotes e muitas vezes os conduzo. Não acho mais difícil conduzir alguns cães maiores do que os meus próprios. Na verdade, é até mais fácil, tanto a condução como o treino. Cada vez que vejo um Border Collie nas aulas, eu me pergunto se sou louca ou porque ainda não tenho um. Mas, novamente, não estou no Agility pelos resultados...

Agiliteiros.com: Como é a vida de seus cães em casa?

Silvia Trkman: Eles são hiperativos, mas eu os amo por isso. Estão sempre prontos para brincar, para uma longa caminhada e as cadelas ficam enlouquecidas quando me vêem fazendo as malas. Eu acho que elas amam as viagens muito mais do que eu. Vão para todos os cantos comigo e, quando era filhote, La até freqüentava a Universidade comigo. Meus cães vêm em primeiro lugar e são meus melhores amigos. Só tive três cães em toda a minha vida e todos eles dormem comigo, no meu quarto.

Agiliteiros.com: Além do Agility, que outras atividades seus cães têm?

Silvia Trkman: Aiken foi treinado também para Obediência, Flyball e até um pouco de Schutzhund, mas paramos porque ele odiava faro. Com Lo, treinei faro e também Flyball. La aprendeu alguns truques como os do Freestyle, que é um esporte canino que ainda não existe aqui na Eslovênia e sobre o qual, confesso, não sei nada! Tudo que ensinei para ela foi que, trabalhar comigo, é divertido e alimenta seu cérebro superativo.

Agiliteiros.com: Qual a melhor coisa do Agility?

Silvia Trkman: Acho que o Agility é a melhor forma de construir uma relação próxima com um cão, aprender mais sobre ele e fazê-lo feliz. É também ter um ótimo motivo para fazer as malas, pegar os cães e sair de casa por dois dias, uma semana ou um mês. É maravilhoso!


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