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Querida
Alanis
Demorei um pouco para escrever,
pois as coisas ainda estão um pouco estranhas na
minha vida desde que você foi embora. Sua carinha
povoa mais do que nunca os nossos pensamentos, nossos corações,
nossos sentimentos. Eu choro, seu pai chora, seus avós
choram, nossos amigos mais próximos choram sua partida
prematura.
Fiquei triste por você
ter ido embora tão cedo, mais triste do que nunca
pensei que ficaria. Meu coração perdeu um
pedaço tão grande, acho que nem eu sabia que
você ocupava tanto espaço em meu coração.
Mas ao mesmo tempo me senti muito privilegiada por ter tido
você na minha vida. Você que me ensinou tanta
coisa com seus olhos, com suas atitudes, você que
sentia tudo que eu sentia, que ria minhas risadas e entendia
as minhas lágrimas como chorei no seu ombro,
meu amor! Quando ninguém mais me entendia, você
estava lá, sempre pronta a me entender, me ouvir
e me consolar. Você e seu rabo de helicóptero,
sua cara de foto estourada em que vemos só os olhos
e o focinho, pretinhos. Os cafunés nos seus cabelos,
os carinhos na orelha, coçadinhas na barriga, brincadeiras
na grama, banhos mornos e toalhas macias, tudo que te fazia
ronronar.
Você, que encantou
um diretor de redação a ponto dele pedir que
toda a sexta-feira você viesse à editora para
conversarem em argentinês, uma língua
que você só falava com ele. E que ele fez questão
que você fizesse um ensaio fotográfico com
roupinhas e apesar do fundo branco, foi a que melhor apareceu
nas fotos.
Você nunca me disse
não. Nem talvez.
Você era a querida do SIM, do SEMPRE, do PRA SEMPRE...
Você sentia dor nos vários curativos que teve
de fazer ao longo da vida (quem mandou ser estabanada assim?),
mas nunca mostrou os dentes para mim.
Você se atracou com alguns cachorros durante sua vida
e a forma que sempre usei para separar você dos outros
era colocar meu braço em sua boca. E você nunca,
nem por engano, me mordeu.
Você que passou a ser
meu sobrenome... Adriana? Qual delas, são tantas...
Mas Adriana da Alanis sou só eu...
Dormiu por anos na minha
cama, foi minha companheira quando eu, sozinha, ia passar
fins de semana no sítio. Correu muito comigo, viajamos,
passeamos, você sempre sentada ao meu lado na picape.
Passamos medo em tempestades querida, você
tinha tanto medo de raios quanto eu! -, nos abraçamos
e vimos a tempestade e o tempo abrir juntas.
Você derrotou a piometra
e se recuperou tão rápido, quase a jato.
Você derrotou o câncer
de pele, mas a doença fez com que você não
pudesse mais tomar sol. Você sempre foi rebelde, mas
entendeu o que eram aqueles fios na sua barriguinha e não
arrancou um que fosse! Sua nova vet ficou feliz com sua
recuperação, você nos emocionou com
sua vontade de viver, de sarar, de poder correr com seus
irmãos. Aí conseguimos roupinhas de seu tamanho
GGGGGG e você resolveu escapar do sol.
É tão injusto
que pessoas tenham tirado você de mim.
Você nos defendeu duas
vezes deles, mas infelizmente eles descobriram seu ponto
fraco: como eu, você é muito gulosa... Não
resistiu àquela comida caindo do céu e devorou
tudo antes que seus irmãos chegassem perto.
Eu te vi, linda, descansando.
Você estava muito calma, deitada onde eu pedi que
ficasse quando o sol batesse: à sombra das bananeiras.
Com seu pijama cor de rosa, deitada de lado, como se estivesse
dormindo. Eu te chamei e você não veio. Chorei,
gritei e você não veio. Só assim para
eu ter certeza de que você nunca mais viria... E como
isso doeu, minha branca! Foi a maior dor que já senti
em minha vida...
Durante sua recuperação,
em que levamos todos os colchões para a sala, cobrimos
tudo com lençóis e passamos o fim de semana
todo na sala dormindo, eu acordei chorando, de medo de um
dia te perder... Eu chorava e você conversava com
seu pai, pois não entendia porquê eu chorava
se você já estava firme e forte (com pontos
fresquinhos na barriga, veja só essa cachorrinha!).
Aí como eu não te escutava, você prometeu
para seu pai que nunca me deixaria. Como sua ausência
dói, minha querida!
Você foi a minha primeira
cachorra, a que ensinou para mim como cachorro é
MESMO tudo de bom!
Eu te ensinei algumas coisas,
mas as lições mais importantes, quem aprendeu
fui eu.
Obrigada, linda!
Eu vivi melhor porque um
dia você existiu.
Eu sou hoje uma pessoa melhor
por causa do seu amor, de sua compreensão, de sua
paciência.
Espero que meu amor também
tenha feito com que sua vida tão curta tenha sido
especial.
Você foi amada demais,
branca.
Eu te amei como jamais amei
ninguém na minha vida.
Tenha certeza disso.
Muitos beijos, mais do que
todos que trocamos nesse tempo em que estivemos juntas.
Muitos abraços, mas
longos e quentes do que aqueles que compartilhamos nas noites
frias de céus muito estrelados.
E me espera, porque eu vou
sempre esperar pelo nosso reencontro.
Adri
Outra carta
para Alanis
Ola minha Alanis.
Você, seus irmãos e sua querida mãe
foi a melhor coisa que me aconteceu.
Aprendi a ser uma pessoa melhor com todos seus gestos e
carinhos com seus
irmãos e com sua mãe e eu.
Minha querida eu sempre estarei
com você e você sempre estará comigo.
Te amo muito minha linda
branca. Um beijo e muitos carinhos na orelha e aquele
beijo na bochecha.
Rogério, seu pai.

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