|
CORRIDA
DE TRENÓS
Iron Dogs Verdadeiros atletas de ferro. Assim podem ser considerados os cães que por esporte conduzem trenós por algumas das regiões mais inóspitas do mundo Por Adriana Mori |
||
|
No primeiro
dia de março, 71 mushers (condutores de trenós) estiveram
perfilados para a largada de Iditarod, considerada uma das provas
de longa distância mais importante do esporte. Cada um dos trenós
conta com até 16 cães, que puxaram o trenó e seu
condutor por mais de oito dias, em uma trilha de 1680 quilômetros
que separam o ponto de partida, Anchorage, até Nome, no Alaska. Há muito cansaço e riscos pelo caminho, mas tudo isso vale a pena para os mushers. "Não
existe nada melhor do que estar naquela imensidão branca, naquele
silêncio, com meus melhores amigos", diz a bióloga
Aliy Zirkle, 33 anos, musher há dez anos. Aliy se mudou para
o Alaska a trabalho e lá descobriu os trenós puxados por
cães. "Na cidade onde morava, só se chega de avião,
snowmobile ou trenó, que é a melhor e mais divertida forma
de locomoção", conta. O que hoje
é esporte, antes era usado basicamente como meio de transporte.
"Na época da Corrida do Ouro começaram a ser realizadas
as primeiras corridas de trenós, sendo que as mais antigas aconteciam
na região de Nome, no Alaska, e o objetivo era ver quem era o
mais rápido", comenta a americana Kathy Frost, heptacampeã
mundial em corridas de velocidade, praticante do esporte por mais de
20 anos e diretora da associação Mush with PRIDE.
Trenós
em todo mundo O esporte
se difundiu quando os habitantes do Alaska voltaram para casa, nos demais
estados americanos e até outros países, e levaram os cães
e o esporte com eles. "Hoje há praticantes em mais de
25 países, sendo que os melhores vêm dos Estados Unidos,
Canadá, Suécia, Noruega, Alemanha e Itália",
comenta Kathy. A fórmula do sucesso, garante ela, está
nos cães. "Pelo esforço que fazem, inspiram muitos
cuidados, como nutrição de alta qualidade, supervisão
veterinária constante, socialização e treinamento
consistente", enumera. "Em
corridas de curta distância, os trenós chegam a mais de
30 km/h, nas de longa distância, onde resistência é
muito importante, os trenós começam a 20 km/h e terminam
a 12 km/h. Além do cansaço, durante os percursos se você
perder um cão, não é possível trocá-lo
por outro",
explica Aliy. Em uma corrida como Iditarod, ninguém chega no
final com todos os cães com os quais partiu e é comum
acontecer de trenós chegarem com menos da metade dos cães
que largaram. Segundo Aliy Zirkle, cães de trenó não se formam, eles nascem para puxar trenós. "Algumas raças ou cães podem até aprender a puxar trenós, mas cães como o Alaskan Huzky fazem isso por instinto e gostam, afinal eles vêm sendo criados há muito tempo para fazer isso. Quando os filhotes têm oito semanas, se os colocarmos em guias, eles vão tentar puxar com toda a força que têm", diz.
O treinamento
começa quando os filhotes têm seis semanas de vida. "Antes
disso, eu os pego desde recém nascidos para que comecem a se
acostumar com meu cheiro e com isso começamos a estabelecer nossa
ligação", aconselha. Aos seis meses, começam
as "aventuras", quando saem para pequenas caminhadas que aumentam
conforme vão crescendo. Com três meses, os filhotes já
estão tão rápidos que não é mais
possível acompanhar a pé e a partir dos seis meses, começam
a percorrer pequenas distâncias, em matilhas de poucos animais,
puxando trenós.
Em um trenó,
cada posição tem uma função. Os dois cães
que vão na frente são chamados líderes e indicam
a direção do trenó na trilha, sempre trocando informações
com o musher. "Os líderes são importantes pois
eles devem ser capazes de seguir a trilha mesmo se você, o musher,
não conseguir vê-la", diz Zirkle. Eles têm
de ter o desejo de liderar a matilha e têm de ser inteligentes
bastante para saber onde eles estão e o que eles devem fazer.
"Sempre tenho em minha equipe mais de dois cães que podem
ser líderes, para o caso de baixas. Quando disputo corridas de
longa distância, tenho entre o total de cães permitidos
pelo menos metade dos cães que possam desempenhar essa função",
diz Aliy. Segundo Kathy Frost, o equipamento necessário para começar a treinar são um trenó (ou equipamento semelhante), com um freio de neve, cordas para reboque, arreios, roupas adequadas para o condutor e cães. "Para meu tipo de corrida, de longas distâncias, a minha raça preferida é o Alaskan Husky", diz Aliy Zirkle. "Realmente essa raça foi criada para puxar trenós, mas mushers de todo mundo usam outras raças, como os outros huskies, o malamute e até bracos alemães, que são muito populares em países menos frios", comenta Kathy. Segundo ela, os mushers por lazer treinam também outras raças, como labradores, pastores alemães e até setters irlandeses. Nem todo Husky é cão de trenó
Não
são todos os cães expostos ao mushing que gostam de ser
treinados ou continuam a praticar o esporte. "Na verdade, muitos
dos cães escolhidos pelos mushers são aposentados precocemente
porque por algum motivo não são bons ou ainda por terem
pelagem muito pesada, causando superaquecimento na trilha. Esses cães
acabam se tornando pets ou sendo usados apenas para fins de lazer",
comenta a comportamentalista americana Patrícia Bentz, que passou
seis dias viajando de trenó pelo Parque Denali, no Alaska.
Embora não
haja uma forma de fazer com que os cães gostem do esporte, aqueles
que gostam do esporte adoram o que fazem. "Especialmente se
forem bem tratados pelos handlers e que tenham com eles um relacionamento
de amizade e parceria", diz Patrícia. Essa relação
se desenvolve basicamente por causa de dois pontos: o musher acompanha
o cão na atividade que ele mais gosta do mundo e ainda sacia
suas necessidades físicas e psicológicas. "Nas
corridas, normalmente há intervalos quando os cães descansam
e o musher deve aproveitar para estar com eles. A ligação
mais forte normalmente ocorre com os cães líderes, pois
eles têm um papel muito importante no trenó e têm
direito a tratamento extra especial", comenta Patrícia.
Entre as necessidades dos cães de trenó, atenção especial na alimentação. "Eles precisam de dieta rica em gordura e proteínas, que seria desbalanceada para cães que não praticam esse tipo de exercícios", comenta Kathy Frost. Como suplementos, vitamina C e fibras, para saúde gastrointestinal. Além disso, os cães requerem monitoramento veterinário constante por causa dos problemas a que são passíveis. "Os mais comuns são infecções do trato urinário, anemia por stress e problemas musculares. É necessário também dar uma atenção especial às patas, bem como pescoço e coluna. Os mushers têm de aprender a examinar seus cães já que problemas nos ombros e cotovelos são comuns, especialmente se a trilha não for boa ou se os cães não estiverem em excelentes condições", diz Kathy.
Dogsled Associações Alaska
Dog Mushers' Association (ADMA) International
Sled Dog Racing Association (ISDRA) European
Sled Dog Racing Association (ESDRA) |
||
|
|
||