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A Inteligência Canina
Está escrito nos genes: certos cães têm instintos que se revelam ou se exprimem mais rápida e facilmente conforme as raças e os indivíduos. Alguns não hesitam em falar de inteligência, mas nesse campo, muitos preferem se referir às aptidões naturais dos cães. Ao lado do nato, há também o adquirido. Aqui, a capacidade do cão de compreender e aprender tudo ao longo de sua vida configura uma nova forma de inteligência.
Por Dr. Thierry Bédossa*
Prestes a decolar

No nascimento, o filhote ainda não atingiu o desenvolvimento de seu sistema nervoso central: ele é incapaz de se movimentar ou de se aquecer e passa 90% de seu tempo dormindo. Seus olhos e seus condutos auditivos se abrem entre o 10o e o 15o dia, o que não significa que antes disso o filhote seja autista. Em plena fase vegetativa, ele percebe certos sons e halos luminosos, seu tato proporciona sensações precisas e ele já possui o paladar. Durante esse período, ele adquire novas capacidades sensoriais e motoras. Sua inteligência não existe além da bagagem genética que se exprimirá mais ou menos de acordo com seu meio ambiente e estímulos recebidos.

Cabeça bem feita

Se o papel da mãe é fundamental quanto à hierarquização e aquisição de códigos e rituais sociais especificamente caninos, o do dono, ajudando o cão a se situar no seio da matilha humana e a integrar novas regras de vida em sociedade, não é menos. Até a puberdade, o filhote é bem maleável. Bem motivado, ele é capaz de integrar um volume impressionante de aprendizado. É uma fase decisiva para seu futuro caráter de adulto e sua capacidade de compreensão. Logo, é necessário aproveitar esse período para "fazer corretamente sua cabeça" e permitir que suas capacidades mentais próprias desabrochem progressivamente.

Eu sou um cão

Os primeiros aprendizados começam no período de transição (do 10o - 15o até 20o - 25o dia), de acordo com as interações com a matilha familiar. O cão já se identifica como cão (impregnação). Ele não passa mais do que 65 a 70% de seu tempo dormindo, começa a explorar seu ambiente entre as mamadas e a se comunicar por vocalização desordenada com seus irmãos e irmãs. Mas é durante a fase de socialização (até o fim do quarto mês) que ele aprende as bases da comunicação e da vida em matilha, graças ao papel educador da mãe e das brincadeiras com seus irmãos. Eles adquirem, notadamente, auto-controle e noção de hierarquia, fundamentais para um bom equilíbrio psicológico.

Uma questão genética

Sempre ouvimos dizer: "os pastores alemães são obedientes" ou ainda "os dobermanns são agressivos". Ainda que generalizantes, essas afirmações não são de todo inverossímeis. As raças caninas foram criadas conforme certos critérios morfológicos, mas também com base comportamentalista. Assim, um cão de defesa destinado à guarda deve ser naturalmente cauteloso enquanto um cão d'água tende a amar, instintivamente, o elemento líquido. Um Terrier é normalmente mais invocado que um Cavalier King Charles, destinado desde o início à companhia, sendo quase sempre doces e pacíficos. Alguns comportamentos parecem estar escritos nos genes, com mais ou menos vigor.

Bom cão de caça de raça

No domínio da inteligência, os preconceitos são numerosos. Por exemplo, como os cães de caça não se destinam às mesmas atividades, é difícil comparar suas capacidades. Cada um se desenvolve mais particularmente uma parte de suas possibilidades cognitivas em função de suas destinações. Por outro lado, certas raças têm reputação de serem mais inteligentes que outras, como os Poodles. Os cães de caça na pista da presa freqüentemente são impressionantes e a coragem dos São Bernardos impõem sempre respeito.Certamente existem indivíduos mais inteligentes que outros, mas em relação a raças, temos de levar em conta aptidões naturais diferentes.

A força da idade

Na meia idade, antes de ser verdadeiramente idoso, o cão está no melhor de suas capacidades. Ele conhece muitas coisas e integrou muitas aquisições e noções graças à experiência. Ele se sente seguro no seio de um grupo de congêneres e seu dono tem freqüentemente a impressão que seu cão o compreende e aproveita perfeitamente tudo que se passa ao redor dele. Essa impressão não é infundada, o cão conhece perfeitamente seu ambiente. Se ele for estimulado, ele ainda é capaz de aprender e assim será até o final. Estimulando seu cérebro, nós o ajudamos a amenizar os efeitos nefastos do envelhecimento sobre as capacidades mentais.

* O Dr. Thierry Béddosa é veterinário, professor de Etologia e Zootecnia na Maison Alfort, unidade de medicina esportiva e de criação e presidente da Associação dos Comportamentalistas Franceses.



© Revista Atout Chien, edição 202, Dezembro de 2002.


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