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O veterinário americano
Nedim Buyukmihci responde à pergunta que ele próprio
propôs: "Não só poderia como deveria",
afirma, categórico. Sua rotina se divide entre as
aulas de oftalmologia que ministra na Faculdade de Medicina
Veterinária de Davis, pertencente à Universidade
da Califórnia, uma das mais importantes do mundo,
e as pesquisas científicas no campo de oftalmologia
e direito dos animais.
Ativo na questão da
defesa e proteção animal, Nedim preside a
Associação dos Médicos Veterinários
pelos Direitos dos Animais e viaja o mundo todo discutindo
o uso de animais nas faculdades de medicina veterinária,
testes de laboratórios e, à luz de princípios
éticos, a presença de animais em nosso cotidiano.
FOCINHOS:
Por que o senhor não aprova o uso de cobaias animais
no estudo de doenças humanas?
Nedim Buyukmihci:
Primeiro, porque não acho confiável. Se a
doença é humana, o estudo tem de ser com seres
humanos. Veja o câncer, por exemplo. Desenvolver o
câncer e estudá-lo em um rato não trará
resultados tão bons quanto os resultantes do estudo
do câncer em uma pessoa com a doença. A cobaia
fica doente e, cientificamente, não se aprende nada
estudando uma doença humana em um rato. A informação
obtida diz respeito a ratos, não a seres humanos.
FOCINHOS:
O uso dos animais em faculdade de veterinária fere
a ética?
Nedim Buyukmihci:
Da mesma forma que seria eticamente errado matar pessoas
para estudar doenças, é errado fazer com os
animais. Na anatomia humana, nem se pensa em matar para
poder usar o cadáver. Por que em veterinária
não pode ser assim? Muitos cães morrem todos
os dias. Há muitos corpos disponíveis, o que
precisamos é desenvolver um sistema eficiente de
coleta. Às vezes, nos esquecemos de que eles também
são vivos, têm sentimentos. A dor que sentimos
é a dor que eles sentem. Não dá para
perguntar para o cachorro se está doendo, mas sabemos
por nossa experiência com uma injeção,
por exemplo, o quanto dói. Nosso sistema nervoso
é parecido com o do cachorro e do rato, o que dói
em nós, dói neles.
FOCINHOS:
Nenhum caso de uso de animais para estudos é eticamente
lícita?
Nedim Buyukmihci:
Claro que não. Nem todas as experiências com
animais vivos são nocivas. Com uma finalidade justa,
tudo que eu deixaria que fizessem comigo, é justo
que façam com eles. Por exemplo, na Universidade
da Califórnia, na disciplina de oftalmologia veterinária,
os alunos trazem seus próprios animais de estimação
e durante a aula aprendem com seus animais a examinar e
a fazer pequenos procedimentos. Os bichos saem da aula e
continuam a viver bem suas vidas. Outro exemplo, se meu
cachorro tiver um tipo de câncer que está sendo
estudado, se pedissem amostras de meu cão para testes,
eu não veria problema. Se fosse machucar permanentemente
ou matar o cachorro, eu não deixaria, mas para testar,
por que não? A cura obtida a partir das pesquisas
ajudaria meu cão e outros animais a terem uma vida
melhor.
FOCINHOS:
Qual a alternativa para as faculdades de veterinária?
Nedim Buyukmihci:
Usar animais mortos em vez de matá-los intencionalmente
para uso. Mas isso não tem de ser uma alternativa,
tem de ser fato. Essa conscientização deve
partir das faculdades e tem de ter o apoio da população.
As pessoas precisam se conscientizar de que o melhor a fazer
quando o cachorro de estimação morre é
doar o corpo para o estudo. Além de poupar a vida
de um outro cachorro, o cachorro morto ajuda a formar novos
veterinários, que vão cuidar de seus próximos
cães.
FOCINHOS:
Se é fácil assim, por que não é
posto em prática?
Nedim Buyukmihci:
Sempre se matou os animais para usar na faculdade e ninguém
nunca reclamou. Isso está mudando nos Estados Unidos.
Antes, se precisávamos de 30 cães, comprávamos
e matávamos para usar, só que nenhuma prática
exige um animal recentemente morto. O congelamento pode
ser sempre usado e cirurgias básicas podem ser ensinadas
em animais já falecidos. Se o aluno consegue fazer
no cadáver, pode fazer num paciente vivo que precise
ser operado. Em Davis, os alunos fazem três operações
em cadáveres e já estão prontos para
fazer esterilizações e castrações
em animais vivos. Hoje, o aluno pode se recusar a ser responsável
pela morte intencional de um cachorro, pode exigir o uso
de animais clinicamente mortos, não de assassinados.
Isso já acontece em algumas universidades, como na
Califórnia, Colorado, Washington, Ohio e Irvine,
por exemplo. Na Universidade da Califórnia, campus
de Davis, onde leciono, 10% dos alunos já fazem essa
opção.
FOCINHOS:
Mas não existem animais criados para fins científicos?
Nedim Buyukmihci:
As pessoas têm de pensar sobre o que estão
fazendo. Criar para matar, para fazer sofrer é um
grande desrespeito. Nós, os ratos, os macacos, os
cachorros somos todos iguais, estamos vivos, queremos viver,
temos sentimentos, amamos a vida, nossas vidas são
importantes para nós mesmos. Um cachorro não
é uma coisa abanando o rabo, é um ser vivo,
tem sentimentos e expectativas em relação
à vida, tudo o que fazemos e diminui a potencialidade
da vida faz diferença para eles.
FOCINHOS:
E aquele caso do rato em que implantaram uma orelha, não
servirá para no futuro ajudar o homem na reposição
de tecidos?
Nedim Buyukmihci:
Para aquele rato não foi doloroso, mas levou tempo
e muitos outros ratos morreram para chegar lá. Aquele
rato não teve escolha, não perguntamos se
ele queria aquela orelha e nem que em um ano e meio estará
morto. O rato nunca concordaria em ter uma orelha nas costas,
assim como nenhum macaco concordaria em ser tirado da América
do Sul para morar numa gaiola para o resto de sua vida nos
Estados Unidos. Nenhum deles desistiria de sua vida na selva,
de sua família, de todas as coisas que todo macaco
gosta de fazer em nome da ciência. Eu não desistiria.
FOCINHOS:
Mas não é um mal necessário?
Nedim Buyukmihci:
Nenhum mal é necessário. Imagine o que sente
um macaco que sempre foi livre quando é enjaulado.
Sua capacidade de apreciar a vida, de viver, está
sendo diminuída. O mesmo para um elefante, um leão,
uma girafa. O zoológico inteiro é uma crueldade
contra os animais. A mesma coisa acontece com os animais
criados em laboratório. Todo animal tem uma expectativa
em relação à vida, mas quando você
cria esses animais de laboratório, você tira
deles essa expectativa, eles têm direitos também.
Quando você cria cães e ratos, eles não
são mesas ou cadeiras, são seres vivos.
FOCINHOS:
Qual a responsabilidade do homem sobre os seres vivos aos
quais o homem dá a vida?
Nedim Buyukmihci:
Sou totalmente contra a clonagem, acho horrível.
Não somos detentores do princípio da vida,
acho que o homem foi longe demais criando e administrando
a vida. Destruímos a essência da vida, que
no fundo é um presente. Devemos aprender a viver
a vida como ela é, e não sempre tentar ficar
mudando.
FOCINHOS:
Como quando os criadores insistem em mudar a aparência
das raças de cães e gatos?
Nedim Buyukmihci:
Exato. Sou contra raças que foram alteradas para
satisfazer senso de estética humana. Se produzimos
características nos animais e eles sofrem por essas
características que impomos, isso é errado.
Veja por exemplo o cruzamento de gatos da raça persa.
Os criadores cruzam para ter gatos com o nariz cada vez
mais para cima, mas isso prejudica a respiração
do gato, faz a vida dele menos agradável. Isso não
é natural, então por que os criadores fazem?
Fazem porque gostam do gato com o nariz no meio dos olhos
sem pensar se para sua saúde isso é bom ou
não.
FOCINHOS:
E no caso de cães como os pit bulls, que tiveram
cruzamentos genéticos predispondo-os a atitudes violentas
com seus semelhantes?
Nedim Buyukmihci:
Não é um bom sinal uma raça ter sido
produzida para ser um cão de rinha e representar
uma ameaça para as pessoas. Mas também não
é justo matar os cachorros, pois o problema não
é o animal, mas sim algumas pessoas. Se os donos
não os pusessem para brigar, não brigariam.
Nenhum animal gosta de lutar, não são condicionados
para ter aquela reação, mas não há
outra alternativa para os cachorros senão lutar.
As lutas entre animais na natureza são por espaço,
por alimentação, para estabelecer território,
pela disputa da fêmea, é para se imporem junto
aos outros de sua espécie, não para matar
nem machucar.
FOCINHOS:
Qual a responsabilidade do ser humano sobre os animais que
cria?
Nedim Buyukmihci:
Podemos criar animais para satisfazer o desejo das pessoas,
mas isso é um compromisso, somos responsáveis
por ele até que um de nós se vá. Temos
a obrigação moral de mantê-los pelo
resto de suas vidas, pois nós estávamos conscientes
do ônus - e dos grandes prazeres - que um animal de
estimação traz. É como um filho, se
ele tem olhos azuis ou não, isso não faz diferença,
é seu filho e você é responsável
por ele, precisa dar amor, carinho, respeito, ele existe
porque você o fez. Devemos pensar nos animais dessa
forma.
FOCINHOS:
Como ficam os animais que não tem donos?
Nedim Buyukmihci:
No momento em que vivemos, se formos pensar bem, criar cachorros
é eticamente errado. Nos Estados Unidos, temos serviço
de carrocinha que mata cães por causa da superpopulação.
Então, para que criar cães se existem outros
vários morrendo todos os dias? Por que não
adotar um cãozinho em vez de comprar? Sempre tem
um cachorro na carrocinha que satisfaz seu senso estético.
Por que comprar se podemos manter a vida de um cão?
FOCINHOS:
A castração é um método válido
para um controle de natalidade eficiente?
Nedim Buyukmihci:
Não gosto da idéia da castração:
é uma cirurgia, dói, mas não dá
para falar para o bicho que ele não será castrado
se ele não engravidar nenhuma fêmea porque
ele não vai entender. A castração é
necessária para o controle da superpopulação,
para que menos cachorros sofram no futuro. Os animais são
tirados dos abrigos, são operados e assim que se
recuperam, voltam e estão prontos para serem adotados,
com alta taxa de aceitação sobre os não
castrados. Os animais precisam ser tratados com respeito.
As pessoas nunca deveriam cruzar os cachorros só
para ver como vão ser os filhotes. Não merecem
ser tratados como coisas descartáveis. A esterilização
pode ser injusta, mas mais injusto ainda é matar
milhões por ano por excesso de população.
Injusto por injusto, qual injustiça é pior?
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