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Morte desnecessária

Veterinário americano defende uso racional de animais nas faculdades e laboratórios. "Na medicina humana, ninguém mata uma pessoa para depois utilizar seu corpo para estudos. Essa lógica não poderia ser usada também nas faculdades de medicina veterinária?", questiona

POR ADRIANA MORI, para a revista Focinhos (Ed. Peixes)

O veterinário americano Nedim Buyukmihci responde à pergunta que ele próprio propôs: "Não só poderia como deveria", afirma, categórico. Sua rotina se divide entre as aulas de oftalmologia que ministra na Faculdade de Medicina Veterinária de Davis, pertencente à Universidade da Califórnia, uma das mais importantes do mundo, e as pesquisas científicas no campo de oftalmologia e direito dos animais.

Ativo na questão da defesa e proteção animal, Nedim preside a Associação dos Médicos Veterinários pelos Direitos dos Animais e viaja o mundo todo discutindo o uso de animais nas faculdades de medicina veterinária, testes de laboratórios e, à luz de princípios éticos, a presença de animais em nosso cotidiano.

FOCINHOS: Por que o senhor não aprova o uso de cobaias animais no estudo de doenças humanas?

Nedim Buyukmihci: Primeiro, porque não acho confiável. Se a doença é humana, o estudo tem de ser com seres humanos. Veja o câncer, por exemplo. Desenvolver o câncer e estudá-lo em um rato não trará resultados tão bons quanto os resultantes do estudo do câncer em uma pessoa com a doença. A cobaia fica doente e, cientificamente, não se aprende nada estudando uma doença humana em um rato. A informação obtida diz respeito a ratos, não a seres humanos.


FOCINHOS: O uso dos animais em faculdade de veterinária fere a ética?

Nedim Buyukmihci: Da mesma forma que seria eticamente errado matar pessoas para estudar doenças, é errado fazer com os animais. Na anatomia humana, nem se pensa em matar para poder usar o cadáver. Por que em veterinária não pode ser assim? Muitos cães morrem todos os dias. Há muitos corpos disponíveis, o que precisamos é desenvolver um sistema eficiente de coleta. Às vezes, nos esquecemos de que eles também são vivos, têm sentimentos. A dor que sentimos é a dor que eles sentem. Não dá para perguntar para o cachorro se está doendo, mas sabemos por nossa experiência com uma injeção, por exemplo, o quanto dói. Nosso sistema nervoso é parecido com o do cachorro e do rato, o que dói em nós, dói neles.

FOCINHOS: Nenhum caso de uso de animais para estudos é eticamente lícita?

Nedim Buyukmihci: Claro que não. Nem todas as experiências com animais vivos são nocivas. Com uma finalidade justa, tudo que eu deixaria que fizessem comigo, é justo que façam com eles. Por exemplo, na Universidade da Califórnia, na disciplina de oftalmologia veterinária, os alunos trazem seus próprios animais de estimação e durante a aula aprendem com seus animais a examinar e a fazer pequenos procedimentos. Os bichos saem da aula e continuam a viver bem suas vidas. Outro exemplo, se meu cachorro tiver um tipo de câncer que está sendo estudado, se pedissem amostras de meu cão para testes, eu não veria problema. Se fosse machucar permanentemente ou matar o cachorro, eu não deixaria, mas para testar, por que não? A cura obtida a partir das pesquisas ajudaria meu cão e outros animais a terem uma vida melhor.

FOCINHOS: Qual a alternativa para as faculdades de veterinária?

Nedim Buyukmihci: Usar animais mortos em vez de matá-los intencionalmente para uso. Mas isso não tem de ser uma alternativa, tem de ser fato. Essa conscientização deve partir das faculdades e tem de ter o apoio da população. As pessoas precisam se conscientizar de que o melhor a fazer quando o cachorro de estimação morre é doar o corpo para o estudo. Além de poupar a vida de um outro cachorro, o cachorro morto ajuda a formar novos veterinários, que vão cuidar de seus próximos cães.

FOCINHOS: Se é fácil assim, por que não é posto em prática?

Nedim Buyukmihci: Sempre se matou os animais para usar na faculdade e ninguém nunca reclamou. Isso está mudando nos Estados Unidos. Antes, se precisávamos de 30 cães, comprávamos e matávamos para usar, só que nenhuma prática exige um animal recentemente morto. O congelamento pode ser sempre usado e cirurgias básicas podem ser ensinadas em animais já falecidos. Se o aluno consegue fazer no cadáver, pode fazer num paciente vivo que precise ser operado. Em Davis, os alunos fazem três operações em cadáveres e já estão prontos para fazer esterilizações e castrações em animais vivos. Hoje, o aluno pode se recusar a ser responsável pela morte intencional de um cachorro, pode exigir o uso de animais clinicamente mortos, não de assassinados. Isso já acontece em algumas universidades, como na Califórnia, Colorado, Washington, Ohio e Irvine, por exemplo. Na Universidade da Califórnia, campus de Davis, onde leciono, 10% dos alunos já fazem essa opção.

FOCINHOS: Mas não existem animais criados para fins científicos?

Nedim Buyukmihci: As pessoas têm de pensar sobre o que estão fazendo. Criar para matar, para fazer sofrer é um grande desrespeito. Nós, os ratos, os macacos, os cachorros somos todos iguais, estamos vivos, queremos viver, temos sentimentos, amamos a vida, nossas vidas são importantes para nós mesmos. Um cachorro não é uma coisa abanando o rabo, é um ser vivo, tem sentimentos e expectativas em relação à vida, tudo o que fazemos e diminui a potencialidade da vida faz diferença para eles.

FOCINHOS: E aquele caso do rato em que implantaram uma orelha, não servirá para no futuro ajudar o homem na reposição de tecidos?

Nedim Buyukmihci: Para aquele rato não foi doloroso, mas levou tempo e muitos outros ratos morreram para chegar lá. Aquele rato não teve escolha, não perguntamos se ele queria aquela orelha e nem que em um ano e meio estará morto. O rato nunca concordaria em ter uma orelha nas costas, assim como nenhum macaco concordaria em ser tirado da América do Sul para morar numa gaiola para o resto de sua vida nos Estados Unidos. Nenhum deles desistiria de sua vida na selva, de sua família, de todas as coisas que todo macaco gosta de fazer em nome da ciência. Eu não desistiria.

FOCINHOS: Mas não é um mal necessário?

Nedim Buyukmihci: Nenhum mal é necessário. Imagine o que sente um macaco que sempre foi livre quando é enjaulado. Sua capacidade de apreciar a vida, de viver, está sendo diminuída. O mesmo para um elefante, um leão, uma girafa. O zoológico inteiro é uma crueldade contra os animais. A mesma coisa acontece com os animais criados em laboratório. Todo animal tem uma expectativa em relação à vida, mas quando você cria esses animais de laboratório, você tira deles essa expectativa, eles têm direitos também. Quando você cria cães e ratos, eles não são mesas ou cadeiras, são seres vivos.

FOCINHOS: Qual a responsabilidade do homem sobre os seres vivos aos quais o homem dá a vida?

Nedim Buyukmihci: Sou totalmente contra a clonagem, acho horrível. Não somos detentores do princípio da vida, acho que o homem foi longe demais criando e administrando a vida. Destruímos a essência da vida, que no fundo é um presente. Devemos aprender a viver a vida como ela é, e não sempre tentar ficar mudando.

FOCINHOS: Como quando os criadores insistem em mudar a aparência das raças de cães e gatos?

Nedim Buyukmihci: Exato. Sou contra raças que foram alteradas para satisfazer senso de estética humana. Se produzimos características nos animais e eles sofrem por essas características que impomos, isso é errado. Veja por exemplo o cruzamento de gatos da raça persa. Os criadores cruzam para ter gatos com o nariz cada vez mais para cima, mas isso prejudica a respiração do gato, faz a vida dele menos agradável. Isso não é natural, então por que os criadores fazem? Fazem porque gostam do gato com o nariz no meio dos olhos sem pensar se para sua saúde isso é bom ou não.

FOCINHOS: E no caso de cães como os pit bulls, que tiveram cruzamentos genéticos predispondo-os a atitudes violentas com seus semelhantes?

Nedim Buyukmihci: Não é um bom sinal uma raça ter sido produzida para ser um cão de rinha e representar uma ameaça para as pessoas. Mas também não é justo matar os cachorros, pois o problema não é o animal, mas sim algumas pessoas. Se os donos não os pusessem para brigar, não brigariam. Nenhum animal gosta de lutar, não são condicionados para ter aquela reação, mas não há outra alternativa para os cachorros senão lutar. As lutas entre animais na natureza são por espaço, por alimentação, para estabelecer território, pela disputa da fêmea, é para se imporem junto aos outros de sua espécie, não para matar nem machucar.

FOCINHOS: Qual a responsabilidade do ser humano sobre os animais que cria?

Nedim Buyukmihci: Podemos criar animais para satisfazer o desejo das pessoas, mas isso é um compromisso, somos responsáveis por ele até que um de nós se vá. Temos a obrigação moral de mantê-los pelo resto de suas vidas, pois nós estávamos conscientes do ônus - e dos grandes prazeres - que um animal de estimação traz. É como um filho, se ele tem olhos azuis ou não, isso não faz diferença, é seu filho e você é responsável por ele, precisa dar amor, carinho, respeito, ele existe porque você o fez. Devemos pensar nos animais dessa forma.

FOCINHOS: Como ficam os animais que não tem donos?

Nedim Buyukmihci: No momento em que vivemos, se formos pensar bem, criar cachorros é eticamente errado. Nos Estados Unidos, temos serviço de carrocinha que mata cães por causa da superpopulação. Então, para que criar cães se existem outros vários morrendo todos os dias? Por que não adotar um cãozinho em vez de comprar? Sempre tem um cachorro na carrocinha que satisfaz seu senso estético. Por que comprar se podemos manter a vida de um cão?

FOCINHOS: A castração é um método válido para um controle de natalidade eficiente?

Nedim Buyukmihci: Não gosto da idéia da castração: é uma cirurgia, dói, mas não dá para falar para o bicho que ele não será castrado se ele não engravidar nenhuma fêmea porque ele não vai entender. A castração é necessária para o controle da superpopulação, para que menos cachorros sofram no futuro. Os animais são tirados dos abrigos, são operados e assim que se recuperam, voltam e estão prontos para serem adotados, com alta taxa de aceitação sobre os não castrados. Os animais precisam ser tratados com respeito. As pessoas nunca deveriam cruzar os cachorros só para ver como vão ser os filhotes. Não merecem ser tratados como coisas descartáveis. A esterilização pode ser injusta, mas mais injusto ainda é matar milhões por ano por excesso de população. Injusto por injusto, qual injustiça é pior?


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