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Aprendendo a reconhecer e conviver com o stress
Não podemos oferecer a nossos cães uma vida totalmente livre de stress, mesmo que quiséssemos. Stress em moderação não é prejudicial. No entanto, os problemas aparecem quando os cães são submetidos a diversas formas de stress em seu cotidiano e não têm como se recuperar disso. Você pode pensar que você é o único estressado na pista de agility, mas seu cão também sente a pressão. Aileen Clark, especialista em comportamento canino, investigou as causas do stress e como aliviá-lo.

Por Aileen Clark

Os efeitos do stress são cumulativos. Imagine que estamos colocando água em um copo. Quando estiver cheio, ou paramos ou vai transbordar. Se seu cão é submetido a stress contínuo e não consegue se recuperar de seus efeitos, então, como o copo cheio d’água, o cão fica cheio de stress e esse stress vai transbordar. Então teremos um cão que provavelmente apresentará uma série de problemas como latidos constantes, problemas de saúde, agressividades, destruição, inquietude, etc.


Quais as causas do stress em cães?

Seu cão pode ficar estressado por vários motivos. Esta lista não é completa – pode-se adicionar outros fatores pertinentes em cada caso particular – mas dá uma boa idéia dos fatores que provocam stress em seu cão, alguns com efeito maior sobre ele do que outros. Eis alguns exemplos:

Agility

- A fila antes de entrar na pista de agility
- Encontrar outros cães e condutores
- Viajar, incluindo as viagens de carro
- Jogos de bola excitantes na área de exercícios
- Muito treino e muitos comandos
- Falta de consistência em treinos
- Sessões de treinamento

Em casa

- Ficar sozinho
- Sentir fome ou sede
- Não poder fazer suas necessidades quando estiver com vontade
- Ficar sozinho no jardim para atender assuntos de banheiro
- Violência, raiva ou agressão em seu ambiente, inclusive brigas familiares
- Crianças!
- O carteiro, o lixeiro, o leiteiro ou outros visitantes regulares
- Muito ou pouco exercício
- Mudança de rotina
- Dor ou doença
Fora de casa - Na guia, incluindo encontrar outros cachorros, puxando ou levando trancos, etc.
- Clima – por exemplo, ventanias, trovões, excesso de calor ou frio
- Barulhos altos ou repentinos, incluindo fogos de artifício.
- Muitas caminhadas excitantes, principalmente sem guia
- Fêmeas no cio
- Nunca poder relaxar em paz, sempre ser perturbado
- Conflito canino
Datas especiais - Natal e outras festividades
- Um novo “bebê” – canino ou humano

Lutar ou fugir

Ao se deparar com uma situação de risco, o cão tem quatro escolhas:

- Lutar
- Fugir
- Congelar
- Desmaiar


As opções dependem das características do cão ou da situação na qual estiver envolvido.

Como o stress afeta o cão

De cinco a 15 minutos após a situação de stress ter ocorrido, a produção de adrenalina está no ápice. Ao mesmo tempo, aumenta a produção de ácidos estomacais, causando desarranjo, e aumentam os hormônios sexuais. Mecanismos de defesa como a endorfina percorrem o corpo, fazendo com que o cão reaja mais agressivamente e ADH (hormônio anti-diurético) será produzido.

Após 15 minutos, a taxa de hormônios e ácidos começa a cair. Dependendo da gravidade da situação, pode levar de dois a seis dias – e até mais – para que os níveis de adrenalina voltem ao normal. No entanto, se o cão é submetido a stress contínuo, pode ser que o nível de adrenalina NUNCA volte ao normal.

O resgate da adrenalina

A adrenalina é o hormônio do stress. É importante tanto para animais como para humanos quando se encontram em situação de perigo. Funciona da seguinte forma: o aumento da adrenalina dispara os mecanismos de defesa – os hormônios de sobrevivência. O cão vai ficar mais agressivo conforme a endorfina percorre seu corpo. Essas endorfinas vão também bloquear a dor e dar a ele a habilidade de correr mais rápido e lutar mais intensamente se necessário. Então não é sábio separar dois cães que estiverem brigando batendo ou chutanto-os, isso na verdade faz com que os cães lutem com mais agressividade.

O estímulo do ADH assegura que o nível de água no corpo do cão será mantido e o stress faz com que hormônios fiquem de plantão. Os cães apenas suam pelas almofadas, regulando a temperatura do corpo por ofegação, logo almofadas suadas e respiração ofegante excessivamente podem ser boas indicações de que o cão está estressado. É a produção desse hormônio que assegura que o condutor ficará desesperado para fazer xixi no fim do percurso, também!

Um cão com nível de stress constante será mais suscetível a problemas de saúde como alergias, dificuldades cardíacas e estomacais. Eles serão mais velozes e mais violentos em sua defesa, e sua reação a influências exteriores será bem mais rápida e agressiva.

Como reconhecer sinais de stress em seu cão?

Físico
Comportamento
- Seborréia– causada por tensão muscular
- O branco dos olhos ficam muito vermelhos
- O pêlo fica duro, quebradiço e arrepiado
- Aparência doente
- Tremedeira
- Coceira excessiva
- Perda de apetite
- Aparência nervosa
- Alergia
- Diarréia
- Fechamento total dos sistemas
- Mau cheiro na boca e/ou corpo
- Respiração ofegante
- Idas mais frequentes ao banheiro

- Inquietação
- Reação exagerada às coisas
- Latidos, uivos e ganidos
- Tremedeiras
- Morder a si mesmo
- Falta de concentração
- Morder ou mastigar coisas indevidas, como móveis
- Lamber a si mesmo
- Caçar a própria cauda
- Fixação em coisas
- Agressividade
- Comportamento deslocado - fazer outra coisa que não o comando emitido
- Uso de sinais calmantes

Mastigar e latir libera endorfina, o que faz com que o cão se sinta melhor. Então nós é que ficamos estressados e nos comportamos de forma diferente com nosso cão.

Stress e performance

Vamos imaginar uma situação hipotética e exagerada para perceber como os efeitos cumulativos do stress afetam a performance do cão agiliteiro, ou de qualquer cão. George e Percy são fictícios. Não são baseados em alguma pessoa ou cão em particular, mas durante os anos tive a oportunidade de ver diferentes cães e condutores que lembravam George e Percy!

A História de George & Percy

Como arruinar um bom cão!

George trabalha a semana toda enquanto que Percy, seu Border Collie de três anos de idade, fica em casa. Enquanto George trabalha, é função de Percy proteger a casa contra o carteiro, o lixeiro, a velha e seu gato que moram na casa ao lado, bem como de todos que passem na frente do portão.

Então no momento em que George volta para casa exausto de seu dia de trabalho, Percy também está exausto de seu dia de trabalho e a velha abelhuda se queixou do barulho dos latidos de Percy o dia todo de novo. Agora George está bravo com Percy de novo. E vai ficar ainda mais bravo quando perceber que o cão mastigou o tapete de novo. Então George pisa no cocô que Percy fez perto da porta da cozinha. George grita com Percy, então limpa tudo e sobe para se trocar para ir treinar agility.

O passeio de carro até o campo de treinamento é excitante, Percy late o caminho todo. George grita com Percy o caminho todo de novo. Ele tenta uma pistola d’água que alguém aconselhou e quase sai da estrada ao mirar no cachorro. Isso assusta Percy, que fica quieto por um momento. Então ele volta a latir, mas fica de olho na mão de George.

George leva Percy para assistir a aula anterior a sua. Percy começa a dar trancos em sua guia sempre que o cão de outra pessoa entra no percurso, então George decide levar Percy para uma caminhada rápida antes da aula. George joga bola para tentar gastar um pouco da energia do cão. Após dez minutos de jogo, Ethel e Munchkin, um pequeno Papillon, chegam ao campo de treinamento. Percy corre em direção a Munchkin e o abocanha sem avisar. George corre para cima dos cães e grita com Percy. Ele bate e chuta seu cão, mas isso não funciona pois a endorfina que circula pelo corpo de Percy garante que ele não sente nada, então George agarra Percy e tenta libertar o pobre Munchkin. Ethel se dirige aos berros a George, dizendo o quanto estúpido ele é.

Tarde demais

Munchkin foi mordido, então Ethel corre para o veterinário ameaçando George com uma ação legal, conforme ela fará. George está bravo com Percy novamente. Ele dá um tapa em sua cabeça. Isso o ensinará a não atacar mais os cães pequenos, imagina George. Ele tenta colocar Percy na guia mas Percy lembra do tapa, da pistola de água e foge e, de longe, se aproxima lentamente de George para tentar acalmá-lo. George grita com Percy por ser tão lento, agarra-o pela nuca, o que assusta Percy, então ele se vira e dá uma mordida em George. “Você que não fique agressivo comigo”, diz George e dá-lhe outro cascudo na cabeça. ”Isso o ensinará a não me morder”, pensa George.

Hora de fazer agility

Percy sobrevoa como uma pipa as zonas de contato. “Que zonas de contato?”, pensa Percy. Ele derruba todas as barras e destrói tudo que encontra pela frente. Ele nem tenta desacelerar quando ele entra no túnel rígido em U, e bate seu ombro na curva, mas novamente a endorfina faz com que não sinta nada.

George o examina mas como não está mancando, eles continuam. Hora de treinar mais zonas de contato. George está determinado em fazer com que Percy cumpra as zonas de contato dessa vez, então ele o agarra assim que ele desce a passarela e grita para que ele fique. Percy está assustado então ele morde George novamente, descendo pelo lado. Ele corre para a lateral do campo e tem uma crise explosiva de diarréia. George está furioso novamente e diz ao instrutor que ele andou antes de entrar no percurso – de verdade. Todos sorriem amarelo. George está furioso de verdade, põe Percy na guia e o arrasta pelo campo para limpar a sujeira.

Ele leva Percy para casa, dá comida e arruma o carro para a prova do fim de semana. É uma longa viagem ao local da prova e sexta à noite sempre tem trânsito. Sábado de manhã, George está na área de exercícios com Percy, jogando bola para ligar o cachorro. Ele realmente não está ouvindo para o que George diz e por sorte George consegue impedir que Percy ataque outro cão que chega perto.

A primeira prova de Percy é o Agility Open. “Que pena”, pensa George, pois Percy se sai melhor quando tem o Jumping primeiro. A fila da entrada em pista é um pesadelo. Percy está agitado, latindo sem parar. Ele rosna para qualquer cão que chegue perto.

George pega a pistola de água. Ele erra Percy e acerta um pequeno vira-latas que estava perto deles na fila de entrada. George grita com Percy e dispara a arma novamente, acertando Percy enquanto ele olhava para o vira-latas. Percy associa o pequeno vira-latas com George ficando bravo e disparando a pistola nele, então acha que George quer ajuda para mandar essa criatura pequena e desprezível para longe. Percy avança nele e sua dona grita com George e sai da fila. Ela nunca mais vai conseguir ficar na fila com seu cão novamente. George está bravo, então ele puxa violentamente a guia de Percy, apertando o enforcador e novamente dá uma bronca nele. É muito doloroso para Percy e ele mal consegue respirar.

Na linha de partida, George diz para Percy esperar, mas ele parte. Ele derruba as três primeiras barras, voa da gangorra e entra no túnel pelo lado errado. Ele aborda a rampa tão rapidamente que machuca um tendão, mas as endorfinas que fluem por seu corpo garantem que não sente dor. Outra combinação de saltos e Percy faz no sentido contrário de novo. O resto do percurso é um pesadelo e quando eles chegam à reta final, Percy voa para fora da pista para atacar um pastor alemão que passava.

Problema & conflito

George leva Percy para casa desanimado e quando chega em casa, encontra na caixa de correio uma carta do advogado de Ethel, que o está processando. O dono do pastor alemão fez uma reclamação à secretaria da prova e o caso será encaminhado ao Kennel Club. Após a audiência no Kennel Club, George foi banido das competições do Kennel Club por cinco anos. Para George, é a gota d’água: ele manda Percy para adoção e volta para o golfe.

Pobre Percy

Estar no canil do resgate causa bastante stress em Percy. A administradora dos canis sabe que Percy é realmente um cão adorável, mas seus problemas recorrentes de estômago e tendão machucado significam que encontrar uma nova casa para ele será muito difícil. Então, relutantemente, ela liga para seu diretor para tomar a decisão de sacrificar ou não o cão.

Fim (Ou não?)

Como podemos aliviar o stress de nossos cães?

Pobre Percy. Seu futuro parece ser negro. Mas como tudo isso poderia ser evitado?

Quando percebemos que possivelmente o stress está causando um problema em nossos cães, precisamos identificar os fatores que estão provocando o stress. Não podemos eliminar todo o stress da vida de nossos cães e mesmo que pudéssemos, talvez isso não seja necessariamente bom para eles.

Quando tivermos identificado as causas do stress, temos que nos assegurar de que o cão não está sendo submetido a uma overdose de situações estressantes.

Algumas idéias simples são:

Mudar de ambiente e rotinas;

Para de usar métodos duros de treinamento, não há espaço para violência e dor no treinamento canino, e não há desculpas para isso. É totalmente sem valor;

Podemos nos educar a ver, identificar e usar sinais calmantes;

Podemos evitar de colocar o cão em situações de fome, sede, calor, frio extremos e falta de oportunidade de evacuar;

Encontre um ponto de equilíbrio entre exercício e atividade, tanto a falta como o excesso podem causar problemas;

Deixe o cão fazer parte da família o máximo possível. Cães não podem ficar sozinhos por muito tempo. Eles são animais sociais e precisam fazer parte de uma matilha;

Proximidade, toques e massagem ajudam a acabar com o stress (tanto para pessoas como para cães!)

Observe e entenda seu cão

Aprender a identificar os momentos em que ele está achando a vida estressante, intervir e se possível tirá-lo dessa situação ou dar-lhe a chance de recuperar a calma quando a situação estiver terminada.

A melhor forma de fazer isso é limitar os momentos de hiperatividade, como o agility, correr atrás de bolas ou ficar correndo sem propósito para apenas duas ou três vezes por semana. Então deixe que durma bastante nos dois dias anteriores ao que ele vai fazer algo de excitante.

Observação específica para o agility...

Não caia na armadilha de achar que correr atrás de uma bolinha na área de exercício fará com que o cão se acalme antes de entrar em pista. Na verdade tem o efeito oposto. Isso eleva o nível de adrenalina e faz com que o cão fique mais hiper-reativo a qualquer situação em que se veja envolvido.

Seja um modelo para seu cão. Se você reage calmamente a situação, então seu cão tende a se comportar da mesma forma. Se você grita e berra nas situações de stress, seu cão verá que você está fora de controle e assumirá o papel de líder, normalmente com resultados desastrosos.

Tenha consciência de que quando está na guia, o cão perde a opção de fuga.

Não entre em uma fila de espera na pré-pista se isso deixa seu cão ansioso. Dê a ele o espaço que ele precisa para se sentir confortável com a situação.

Dê a seu cão bastante espaço quando encontrar outros cães e pessoas, em qualquer situação. Se você dá um tranco na guia e diz em voz brava “Pare com isso”, você estará dizendo que encontrar outros cães e pessoas é uma experiência dolorosa que o deixa irritado. Você pode culpar seu cão por tentar prevenir que essa experiência dolorosa aconteça latindo ou avançando agressivamente contra outras pessoas e seus cães para se livrar deles?

Nunca deixe seu cão a sós com crianças. Eles não reconhecerão os sinais calmantes aos quais está acostumado e as crianças são imprevisíveis.

Para a maioria dos donos de cães, sua relação com o cão tem sido comunicação em mão única – eles mandam e o cão tem de obedecer. Para quem quer saber realmente e entender os cães, isso não é suficiente. Dada a devida chance, os cães têm uma habilidade impressionante para resolver problemas, ajudar um aos outros e nos ajudar. Pense nas centenas de cães que vão às provas de agility sem nenhum tipo de problema, e pergunte-se se isso é graças aos cães ou aos condutores.

Cães nascem para uma vida de comunicação solidária e cooperação, e tentarão resolver conflitos sempre que permitido. Nós precisamos ajudá-los a conseguir isso sempre que pudermos.

E Percy...

Embora seja um cão fictício, eu não poderia abandoná-lo dessa forma. Ele ganhou uma nova chance. Foi viver com uma família que o trata com respeito, amor e compreensão. Seu tendão sarou e ele conseguiu superar seus problemas de stress. Percy ainda pratica agility, e adora. Quem sabe se ele não será o próximo campeão de Olympia?

Sobre a autora

Aileen Clarke tem cinco cães e tem competido com sucesso em Agility, Estrutura e Flyball. Recentemente ela inaugurou seu próprio negócio, Fellandale Dog Training. No momento, ela tem mais de 70 alunos e a maior parte de seu trabalho consiste em ajudar famílias a lidar com problemas com seus cães. Ela também dá aulas de obediência básica, treinamento para diversão, caminhadas de treinamento e dá palestras para clubes e grupos a respeito de compreensão canina e comunicação. Todo seu treinamento é baseado em carinho e associação positiva. Seu sonho a longo prazo é instalar um Centro de Educação Canina em County Durham.

Tradução: Adriana Mori
Agradecimentos: Ellen Rocco e Peter Van Dongen
Matéria originalmente publicada no site www.agilitynet.com, com tradução e publicação devidamente autorizadas.
Link: http://www.agilitynet.com/magazine/training/stressedout_aileenclarke.shtml
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