Eles também querer festejar!
Por Adriana Souza Silva

Comemorar o primeiro aniversário, comprar o vestido para o baile de debutante, bancar a festa de formatura. Qualquer sacrifício e gasto valem a pena quando o assunto é realizar o sonho dos filhos. Mas tem gente que faz todo esse esforço para o cachorro. De telegrama fonado para o pet aos panetones encomendados no Natal, os mimos em prol do mascote de quatro patas se sofisticaram e cada vez mais se parecem com os presentes trocados entre os humanos. Com a diferença, é claro, de que o bicho não faz a menor idéia do que aquele evento significa. Mas vai dizer isso aos donos...

Quem não se surpreendeu com a festa de arromba que a socialite Vera Loyola promoveu, há cinco anos, para comemorar o aniversário de sua filha mais nova - como gostava de chamar sua cadela pequinês, a Pepezinha? Desde aquela época, no mundinho cão, ninguém tem mais vergonha de contar tudo o que faz e gasta com seu filhote. Fazer recepções para os cãezinhos virou moda no Brasil.

Para high society canina, então, a prática é quase uma rotina. Maria Helena Pozzebon - ex-colunista social e atual professora de boas maneiras em Porto Alegre - é um exemplo emblemático. Há dois anos, ela desembolsa perto de 400 reais cada vez que resolve promover as reuniõezinhas dos amigos de Bethoven, um São Bernardo de quase dois anos de idade. Do nascimento do cachorro até hoje, ela lembra de duas festas que mais demonstraram seu grau de dedicação ao animal: uma de aniversário e outra de formatura. Isso mesmo. Formatura!

A colação de grau aconteceu em dezembro de 2002 e, além do São Bernardo, estavam presentes seus doze coleguinhas de classe. Todos freqüentaram a mesma sala no curso de comportamento canino. "Eles mereceram, passaram de ano", justifica a dona. Maria Helena fez questão de que a formatura acontecesse na sua casa, no nobre Condomínio Santa Teresa, na capital gaúcha. O treinador encarnou o paraninfo da turma e cada cachorro recebeu um diploma. "O momento mais marcante da festa foi a hora do telegrama fonado", diz. A empresa contratada por ela soou um tocante verso, que derramou lágrimas das mães dos formandos. Só faltou a classe latir em coro
agradecendo as belas palavras.

Loucura? Isso não foi nada perto dos palhaços contratados para animar os cãezinhos na festa de aniversário de Bethoven. Na ocasião, Maria Helena liberou a piscina da casa para os pets, mas alguns donos privaram seus animaizinhos da diversão com medo de desmanchar o penteado. "Os poodles, coitadinhos, ficariam horrorosos", lembra a professora de etiqueta.

Quando perguntada se o São Bernardo entendia seus gestos de amor, Maria Helena disparou: "Acho que sim. Mas o instrutor falou para a gente não esperar deles um agradecimento como o dos humanos, né?". Como no mundo humano das celebridades, no universo canino também tem o cão arroz-de-festa. Flapy da Baviera, um cãozinho da raça dachshund - aquele em formato de salsicha - é sem dúvida o freqüentador mais assíduo dos eventos no Rio Grande do Sul.

Seu guarda roupa perde para o de qualquer mauricinho. Vai de roupas e acessórios esportivos até os trajes a rigor. Seu dono, o engenheiro Ricardo Oliveira, 38 anos, jura que o adorável filhote tem vocação para a fama. "Quando o Flapy vê uma câmera, ele já pára e faz uma pose".

No dia 13 de dezembro, Ricardo alugou o pátio e o salão de festas da Igreja de São Francisco - "o protetor dos animais", lembra o engenheiro - para comemorar o aniversário de três anos do filhote. Só com os comes e bebes para 60 cãezinhos foram 200 reais. O evento contou ainda com um desfile beneficente, em que cada cachorrinho percorria uma passarela com um modelito diferente para o orgulho da platéia. Tudo patrocinado por uma fabricante de roupas, a Xodós, grife de São Paulo, que já vem vestindo Flapy em outras ocasiões.

O lado beneficente da festa foi o pedido, a cada convidado, de um quilo de alimento ou um quilo de ração para serem distribuídos a entidades carentes de ajuda a humanos e de ajuda a cachorros abandonados. Para a surpresa de Ricardo, de cada dez quilos doados, sete eram para os asilos de animais necessitados.

Para não perder nenhum momento da agitada vida social do mascote, Ricardo criou um site com direito a clipping de jornais e revistas nos quais Flapy já foi notícia, calendários e jogos personalizados, book com fotos, relação de prêmios e outros mimos. Tem até um blog para o pequeno Cofap contar o dia-a-dia de seu romance: "Visitei minha namorada em Caxias do Sul, passamos bons momentos juntos. Estamos namorando, mas só de pegar na patinha por enquanto", digitou o dono em nome de seu melhor amigo.

Os donos da cachorrada de Porto Alegre gostam mesmo de uma boa balada. E quem ganha com isso são os proprietários de pet shop. O maior deles, o Amigo Legal, tem um buffet só para organizar batizados, casamentos, valsas para debutantes e festas à fantasia. "As pessoas gostam tanto dos bichinhos que os transformam em seus filhos", avalia o empresário Marcelo Krug.

Dono de uma farmácia até 1998, ele descobriu por acaso sua vocação para o mundo animal. Ao presenciar um serviço de banho e tosa mal feito, resolveu montar um negócio vip para os bichos e atender as bizarrices de seus donos. Da lojinha de 70 metros quadrados, aberta há quatro anos, hoje administra duas filiais de 200 metros quadrados, um hotel para pets e presta consultoria para empresários do interior do Estado.

Numa das festas de casamento promovidas por sua empresa, Marcelo convidou um
cliente para se vestir de cachorro e fazer o papel do pai da noiva. Ao final da cerimônia, um buquê foi jogado para a matilha. Os recém-casados tiveram um filhote meses depois que, é claro, foi batizado numa outra comemoração. A Amigo Legal também já organizou o baile de debutante de 15 anos para uma outra cliente, com direito a ensaio da valsa antes da apresentação para os convidados.

Em São Paulo, Bete Correia, dona da empresa Bete Pet, também fez dinheiro com esse filão. Cobra 250 reais, por aula, para ensinar os lojistas a organizar buffets e outros serviços para animais de estimação. Segundo ela, os paulistas deixam cerca de 800 reais para promover uma festa "top de linha". Isso inclui brinquedos, acomodações para cada convidado e um profissional para animar a festa e tomar conta dos pequenos. "Nem sempre os cães têm a mesma classe que seus donos", afirma Bete.

Quem quer fazer um agrado desse tipo ao bichinho tem de preparar o bolso. Só com a alimentação da festa para cerca de 20 "cãovidados" vai uns 500 reais, segundo os cálculos da The Dog Bakery, a padaria para cachorro que fica no bairro da Aclimação, em São Paulo. Lá são vendidos bolos, chocolates, pão italiano, casadinhos de ameixa e até panetone para homenagear os pets na época natalina.

A estilista Camila Murano dispensou o serviço de buffet na hora de organizar o aniversário de seus quatro cachorros, todos vira-latas, acolhidos nas ruas de São Paulo. "Tenho de fazer festa para todos, senão algum deles pode se sentir rejeitado", acredita. Como não sabe em que dia os pequenos nasceram, comemora a data em que eles trocaram o chão duro das calçadas pelo conforto de seu espaçoso apartamento em Higienópolis, o elegante bairro paulistano. Segundo ela, na festa do cãozinho Edu, o mascote agradeceu os presentes abanando o rabinho para cada convidado. "Nessas horas, ele lembra do passado sofrido na rua e pensa: quando eu teria uma festa assim?", dispara a estilista.

De fato, Edu é um felizardo. Da água de sarjeta, evoluiu para a ração importada light e ainda goza o privilégio de ser o cão que Camila mais gosta. Sua preferência por Edu foi confessada sem querer enquanto a estilista conversava com a reportagem da AOL. Ao perceber que revelara seu segredo à repórter, Camila sussurrou: "Não devia ter falado isso. Eles estavam aqui perto e podiam ter ouvido".

Se os irmãos vira-latas são tratados como reis no apartamento de Higienópolis, o mesmo não acontece quando vão aos pet shops badalados, como o Bad Dog, um dos mais tradicionais da capital paulista. "Os proprietários tratam os cachorros muito bem, mas alguns clientes têm preconceito pelo passado deles." A família de Camila também não entende sua paixão pelas raças menos favorecidas. "Sempre pego os cachorros da rua, trato deles e encontro alguém para adotá-los."

Na opinião de quem mais entende de agrados caninos, a socialite Vera Loyola, a atitude de Camila está certíssima. "A tendência agora é praticar o bem,fazer filantropia", informa Vera. Tanto é que os convites para suas próximas festas caninas são vendidos, e o dinheiro, doado às ONGs que cuidam de animais de rua. Nessas recepções, a anfitriã é a pug Perepepê, de 3 anos, que devolveu a alegria à mansão dos Loyolas depois da morte de Pepezinha, em abril de 2002.

No Brasil, lojas de acessórios para animais, clínicas e hospitais veterinários movimentam cerca 4 bilhões de reais por ano, de acordo com a Associação dos Revendedores e Prestadores de Serviços para Uso Animal (Assofauna). Segundo dados do setor, seis em cada dez famílias têm um bicho de estimação. O ramo mais lucrativo é o de rações para pequenos animais, que fatura algo em torno de R$ 1,3 bilhão - um volume que quadruplicou entre 1995 e 2002.

Há dois anos, o setor de produtos para pets ganhou uma feira exclusiva de profissionais da área, a Pet South América (www.petsa.com.br), em São Paulo. Em três dias do evento cerca de 18 mil pessoas visitam estandes representados por 160 empresas diferentes. Nada mal para o país que é o segundo maior do mundo em número de animais de estimação, com 28 milhões de cães e 12 milhões de gatos.

Fonte: Revista AOL