Brasil cria primeira vacina contra leishmaniose canina
Por Roberta Jansen

Rio de Janeiro (O Globo, 15/08/2003) - O Brasil acaba de desenvolver a primeira vacina do mundo contra a leishmaniose visceral canina. Transmitida sobretudo por insetos que picam cães infectados, a doença afeta, anualmente, 500 mil pessoas - três mil delas no Brasil - e é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) uma das seis maiores endemias do planeta.

Estudos comprovam que a imunização de cães pode ajudar a reduzir significativamente o número de casos, e até erradicá-los, uma vez que não existe vacina para humanos.

Chamada de Leishmune, a vacina foi desenvolvida pela equipe da bióloga Clarisa Palatnik de Sousa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), depois de 20 anos de pesquisas. O imunizante já foi licenciado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e deve começar a ser comercializado no primeiro trimestre de 2004.
- Ao protegermos o cão, reduzimos a doença nesses animais - afirmou Clarisa. - Com isso, diminuímos significativamente a doença na população em geral.

Isto ocorre porque os cães são os principais reservatórios do parasita causador da doença, que é transmitido ao homem através da picada de insetos da classe dos flebotomíneos - chamados de mosquito-palha, cangalhinha ou birigui. Ao imunizar os cães, interrompe-se o ciclo da enfermidade. A nova vacina é indicada apenas para cães saudáveis.

A vacina é feita a partir de uma fração purificada do parasita morto e atua impedindo o desenvolvimento da infecção. O produto estimula a ação dos linfócitos que matam as células infectadas pela leishmania e também dos chamados linfócitos protetores - que incitam as células do sistema imunológico.

Pelo menos 80% dos casos de leishmaniose visceral concentram-se na Índia, Sudão e Brasil, nesta ordem. Mas a expansão e urbanização da doença é um fenômeno mundial, percebido em quatro continentes - América, Europa, Ásia e África -, e atribuído sobretudo ao deslocamento de populações.

No Brasil, a maior incidência da doença é verificada na Região Nordeste (92% do total). Apenas no ano passado, 13 pessoas morreram no extremo oeste do estado de São Paulo.

A leishmaniose é uma infecção que afeta o revestimento dos órgãos, sobretudo baço, fígado e medula óssea, provocando o aumento das vísceras. Há tratamento para a doença em humanos, embora não para cachorros. Clarisa informou que tem planos de, no futuro, dar seqüência às pesquisas com o objetivo de criar uma vacina para seres humanos.