|
Há
algum tempo vem transcorrendo um debate na imprensa agiliteira
a respeito da altura dos saltos na Grã Bretanha, com as
conseqüências possíveis associadas a mudanças para a altura
de salto oficial e sobre o risco de lesões e ainda segurança
em geral no agility. Conhecido condutor e veterinário, Peter
van Dongen acha que as pessoas – muitas delas com anos de
experiências – não sabem diferenciar o certo do errado no
que diz respeito a esses assuntos. Ele acredita que esses
pontos de vista são baseados mais nas experiências pessoais
como condutores ou treinadores do que em evidências científicas
das lesões nos cães de agility e suas causas.
Por
Peter Van Dongen
Com
minha formação científica, prefiro tentar analisar fatos
ao invés de opiniões, idéias, crenças e outras coisas. Isso
me fez pesquisar o que temos de concreto nessa área, o que
infelizmente revelou-se ser muito pouco. Há, em minha opinião
- e pude verificar com várias fontes em meu campo de conhecimento
-, um número de estudos científicos a respeito de lesões
em cães de agility que estatisticamente não são capazes
de fornecer dados seguros para alguma conclusão. Portanto,
tive de buscar informações por outros meios.
Como
cirurgião veterinário, procurei me manter nessa linha de
pesquisa e para isso falei com diversas fontes, além de
muitas pessoas envolvidas com o agility. Ninguém tem de
concordar comigo, mas espero acrescentar informações ao
debate para que a comunidade agiliteira junta possa fazer
com que o agility se torne um esporte o mais seguro possível,
sem esquecer a diversão, claro!
Avaliação
do risco
Avaliar
o risco nunca é fácil! Podemos constatar isso em nossa vida
cotidiana. Consigo me lembrar de vários casos nos últimos
anos, quando as pessoas tinham idéias estranhas baseadas
em interpretações errôneas dos riscos envolvidos. Por exemplo,
o caso da vaca louca: Sim, claro que agora está documentado
que a vaca louca pode ser transmitida aos humanos e isso
por si só é terrível. Mas a chance de se contrair o mal
da vaca louca comendo um bife é incrivelmente pequena.
Por outro
lado, a chance de contrair o mal de Alzheimer por ingestão
de alumínio já foi provada ser relativamente alta. Isso
pode acontecer pelo uso de utensílios de cozinha de alumínio,
mas ninguém nunca pensou em jogar as frigideiras de alumínio
fora. Ainda, a chance de morrer ao sair da cama e cair de
cabeça ou escorregar na escada é centenas de vezes maior,
mas ninguém nunca sugeriu acabar com as camas e degraus.
Na
perspectiva do agility…
Acho
que podemos sempre fazer com que as coisas sejam as mais
seguras possíveis.
Mas o que acontece com mais freqüência é que as pessoas
têm uma reação repentina e normalmente exagerada a eventos,
como um acidente com o pneu. Isso deveria se tornar um ponto
de discussão para daí tirarmos sugestões para melhorar,
e nunca banir o pneu do esporte. Se não queremos submeter
nossos cães a nenhum tipo de risco, talvez não devêssemos
praticar agility! Na verdade, talvez nem devêssemos tirar
o cão de sua cama de manhã, ou ainda melhor, nem ter cachorro!
Alguém
já pensou que a coisa mais arriscada que você faz com seu
cão em um dia comum de agility é dirigir cerca de 160 km
na estrada, de manhã cedinho, com o cão no porta-malas?
Assim que você coloca seu cão na partida de um percurso
de agility, ele passa a correr o risco de sofrer uma lesão.
A razão pela qual isso não acontece tão freqüentemente é
que nesse caso você tem noção dos problemas possíveis e
age no sentido de evitá-los. É impossível
ter um esporte totalmente livre de riscos. Aliás,
a vida é assim também.
Lesões
vistas na prática
Segundo
minha experiência, alguns tipos de lesões são mais comuns
que outras. Sou veterinário há 11 anos e nos últimos seis
estou envolvido com o agility também. Nesse tempo, cuidei
de vários cães que sofreram diferentes tipos de lesões.
Descobri que os mais comuns nos cães de agility envolvem
o ligamento cruzado cranial, a lombo-sacral e os dedos.
Outros veterinários, fisioterapeutas ou osteopatas podem
encontrar outros tipos de lesões. Para ter uma boa idéia
de todas as lesões encontradas nos cães de agility, teríamos
que pedir a todos os veterinários que mantenham os dados
por tempo suficiente para ter números estatisticamente relevantes.
Quem se habilita?
Altura
do salto
Mesmo
com o risco de me meter em discussões, vou dar meu parecer
a respeito desse assunto. Eu li as opiniões de algumas pessoas
na Grã Bretanha, bem como nos Estados Unidos e Canadá sobre
os efeitos da mudança da altura do salto na velocidade dos
cães, os riscos de lesões e a relação com a mudança de alturas
dos saltos proposta pela FCI, entre outros. Todos parecem
ter bons argumentos para explicar por que mudar ou não.
Eu tinha
uma idéia sobre o efeito de saltos mais altos e mais baixos
nos cães e formei a opinião de que os saltos mais baixos,
aliado a percursos mais suaves, eram o menos estressante
para as pernas dos cães do que percursos mais complicados
que se tornaram bem comuns no agility, com saltos altos,
curvas precisas e saltos em posição de descanso.
No entanto,
após ler uma material em um site holandês, mudei de opinião.
Esse artigo foi escrito por três condutores e treinadores,
um deles veterinário, outro fisioterapeuta e o terceiro,
estudante de veterinária. Eles se basearam em uma palestra
com o professor Schamhardt, um renomado especialista em
biomecânica da Faculdade de Medicina Veterinária de Utrecht,
que fez parte de uma jornada a respeito de lesões provocadas
pelo agility na Holanda. Ele fez uma pesquisa em lesões
esportivas e estresses do salto em cavalos e cães.
Essa
pesquisa discute tudo, desde anatomia básica e fisiologia,
física e o estudo de gravações em vídeo de cães fazendo
agility (não apenas pulando!), trazendo algumas conclusões
muito interessantes. Por exemplo:
-
É a velocidade e não
o peso do cachorro o que aumenta em maior proporção
a energia cinética no pouso depois de um salto. Dobrar
a velocidade representa um aumento em quatro vezes da
energia cinética! A maioria das lesões acontece no pouso
– muito mais do que na decolagem – pois o tempo que
o stress acontece é curto e nesse momento, eles estão
deslocando todo o esforço para as pernas dianteiras.
-
A altura do salto tem
uma influência menor nos estresses do que a velocidade
na qual o salto é executado.
-
Os estresses nas articulações
são muito maiores se o cão fizer ao mesmo tempo uma
curva enquanto estiver pousando de um salto.
-
Pernas flexionadas
absorvem o stress exercido muito mais facilmente - com
chances menores de lesões - do que pernas estendidas.
As pernas ficam flexionadas no pouso quando a altura
do salto é relativamente alta e a distância entre os
saltos, relativamente curta. É a relação entre altura
e distância que deve ser levada em conta.
-
As lesões acontecem
mais comumente durante treinos do que em provas, pois
durante o treinamento os cães fazem mais percursos em
menos tempo ou repetem muitas vezes o mesmo obstáculo,
o que é natural.
-
Chocar-se com barreiras
em zonas de contato podem causar grandes deformações
na estrutura da pata, especialmente se forem compactas.
Isso pode ser ainda pior se ao mesmo temo o cão estiver
brecando como, por exemplo, ao descer da rampa. Isso
pode facilmente levar a lesões como fratura dos ossos
sesamóides, artrite no tornozelo, lesões de tendão,
etc. Um ângulo menos fechado na zona de contato e sem
barreiras são recomendáveis.
-
O slalom feito com
uma só perna (quando o cão muda de lado usando uma perna
por vez) põe muito mais stress na espinha e seus músculos,
bem como nas pernas dianteiras, do que o slalom com
as duas pernas (quando o cão pula de um lado para outro
usando os dois dianteiros juntos). Isso pode levas a
espondilite e artrite nos ombros. Cães que fazem o slalom
com uma perna passarão automaticamente a fazê-lo com
as duas se a distância entre as varas for maior. A distância
entre as varas deveria ser proporcional ao comprimento
do cão, o que freqüentemente está ligado à altura. De
qualquer forma, deveria haver slaloms diferentes para
minis, midis e standards.
Prever
é um bom método para evitar lesões nos cães. Se eles sabem
o que esperar, eles ajustarão suas técnicas de acordo. Isso
explica por que não é necessariamente mais perigoso treinar
no carpete do que na grama. Afinal, é freqüente vermos gramados
imprevisíveis quando secos ou molhados, com suas diferenças
de relevo. O carpete, no entanto, é muito previsível depois
dos primeiros momentos de reconhecimento e os cães mais
experientes se adaptam facilmente.
Conselhos
para diminuir o risco de lesões
De tudo
que foi dito acima, chegamos à conclusão de que é possível
reduzir os riscos de lesões - já que o agility deveria ser
um esporte divertido e saudável, sem ter de expor o cão
a riscos desnecessários. Na minha opinião, há alguns fatores
a serem considerados nesse sentido:
-
Tenha certeza de que
seu cão está saudável, em forma, nunca acima do peso.
Leve-o ao veterinário se necessário e não se esqueça
de informar que você pretende praticar agility com seu
cão.
-
Veja se as unhas do
seu cão não estão compridas, em especial as do quinto
dedo.
-
Faça sempre um bom
aquecimento, e isso vale tanto para o condutor como
para o cão. Corridas suaves seguidas por um ritmo mais
acelerado, talvez atrás de uma bola, seria uma boa forma
de aquecer os músculos antes de levar o cão à pista.
Fazer alguns saltos pode ser uma boa idéia, depois do
aquecimento inicial.
-
Treine o cão de acordo
com sua experiência e habilidade. Se um certo percurso
parece técnico demais, difícil demais, longo demais
ou o que quer que seja, não submeta seu cão a isso.
Você tem essa opção de escolha! A segurança de seu cão
deve ser o mais importante nesse momento.
-
Não aumente os problemas
de saúde de seu cão insistindo em competir com ele.
No diagnóstico de problemas como espondolite espinhal,
artrite, um problema de coração, é melhor mantê-lo em
forma do que simplesmente enrolá-lo em uma manta, mas
pese os prós e contras com cuidado. Seu veterinário
é a melhor pessoa para ajudar nessa decisão.
Observações
a respeito de obstáculos
-
Barreiras – Nada de barreiras em zonas de contato;
-
Ângulos
mais abertos em zonas de contato, principalmente a rampa;
-
Slalom
de acordo com o tamanho do cão (Mini, Midi e Standard);
-
Pneu
dobrável – há informações a respeito de pneus dobráveis
nos Estados Unidos; também sei de sugestões para se produzir
um pneu com o uso de velcro, por exemplo. Também acho que
o pneu do tipo “lolliframe”, suspenso por corrente, melhores.
-
Gangorra
– elas deveriam ter um tipo de apoio que absorvesse o choque
para evitar um impacto forte e repentino quando os cães
estão na gangorra, o que pode provocar problemas de coluna
no pescoço. Essa sugestão foi registrada por Imogen Hemingway,
osteopata, após verificar o número crescente de cães cujos
donos a procuraram por causa desse tipo específico de lesão.
Em minha
opinião, a altura do salto não aumenta significativamente
o risco do cão sofrer lesões, desde que sejam montados percursos
adequados, que os cães estejam em forma e bem, que os condutores
estejam conscientes dos possíveis problemas e conduzam seus
cães conforme e que as pessoas continuem a discutir o agility
de forma a propor mudanças de forma sensível e construtiva.
PS: Por
que todos os saltos estão sempre na mesma altura (sem contar
o fato de “estar nas regras”)? Os saltos dos cavalos não
ficam e isso os força a olhar e julgar cada salto. Outra discussão?
Sobre o autor
Peter
van Dongen é veterinário certificado formado pela Faculdade
de Veterinária de Utrecht, Holanda, em março de 1990. Ele
trabalhou em clínica geral em Louth, Lincolnshire, por três
anos antes de se mudar para Borough Green, Kent. Nessa época,
ele resolveu limitar sua prática a pequenos animais.
Em
maio de 1995, Peter começou a praticar agility (após anos
pensando no assunto) com Basil, uma mestiça de Jack Russell,
na época com cinco anos de idade. Desde então, a dupla se
classificou para diversas finais importantes, como Crufts
e Olympia. Basil, a primeira e até então única cadela de
agility de Peter, atualmente compete entre os avançados
e segue firme e forte apesar dos quase 11 anos de idade.
Peter
foi aprovado no exame para Instrutores de Clube de Agility
em outubro de 1999 e já fez o workshop para juiz de Agility.
Desde dezembro de 1996 ele tem um consultório em Allington,
Maidstone em Kent. Peter e sua esposa Carry ainda vivem
em Borough Green com seus dois cães e dois gatos.
Tradução:
Adriana Mori
Agradecimentos:
Ellen Rocco e Peter Van Dongen
Matéria
originalmente publicada no site www.agilitynet.com,
com tradução e publicação devidamente autorizadas.
Link:
http://www.agilitynet.com/magazine/health/jumpingheightinagility.shtml
Todos
os direitos reservados © 2002
|