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Competindo com Displasia
tradução: Olívia Diniz
© agilitynet

Você descobre que seu cão de agility tem displasia coxofemoral. Instruído pelo veterinário, você espera um mês e então tira outra chapa de raio-X. No entanto, o veterinário acredita que a displasia é mais severa do que se imaginava e que deve ser considerada a hipótese de cirurgia. O que fazer? Será o fim da diversão do agility para você e seu cão? O Dr. De Boer, veterinário do Working K-9 dá alguns conselhos.


Questão?

Meu cão fez recentemente as primeiras avaliações de displasia e foi diagnosticada uma displasia moderada. O que devo fazer? Interromper o trabalho feito com ele?


Resposta

Para qualquer um de nós que trabalha com raças que são pré-dispostas à displasia, essa notícia é, no mínimo, desanimadora. No entanto, tendo lidado com essa questão incontáveis vezes, há uma série de recomendações que podem ser feitas a esses proprietários nessa situação.


Uma segunda opinião

Em primeiro lugar, deve-se ter certeza de que o diagnóstico feito através da radiografia está correto. Se o veterinário que fez o diagnóstico é de confiança, mas não é especialista nessa área, uma boa idéia é consultar um veterinário radiologista ou um veterinário com experiência na leitura de chapas de raio-x. Raças diferentes apresentam variações na articulação da coxa e a menos que seu veterinário tenha familiaridade com essas diferenças e experiência em analisar chapas da região coxo femoral, há sempre a possibilidade de que o quadro correto seja melhor (ou pior) que o suspeitado. É importante ressaltar que graus de displasia são uma avaliação subjetiva, de forma que são comuns pequenas variações de interpretação.


E depois?

Partindo do pressuposto de que a avaliação da chapa de displasia foi correta, há uma série de considerações que devem ser feitas. A primeira delas é que este cão deve ser excluído de qualquer tipo de programa de reprodução. Se nós, como criadores, temos feito progressos no sentido da redução da displasia, não podemos descuidar desta questão e se esforçar para gerar apenas ninhadas livres de displasia.

O segundo ponto a ser explorado é a circunstância em que devemos submeter esse cão a uma cirurgia. Há um tipo de cirurgia que pode ser feita em cães displásicos que vão ajudar a retardar o processo degenerativo que tipicamente ocorre nesses quadros. A cirurgia é a osteotomia triplo pélvica (triple pelvic osteotomy - TPO) que vai ajudar muito alguns cães, particularmente aqueles sem lesões degenerativas pré-existentes nas articulações. Claramente a TPO não muda a genética do quadro, mas pode prolongar o período em que o cão vai viver livre de dor em virtude da redução da velocidade do processo degenerativo.

No entanto, submetendo ou não o cão a uma cirurgia, uma série de cuidados devem ser tomados para atrasar o início e minimizar os efeitos de futuros problemas. Devemos manter os cães leves e com músculos fortes. Excesso de peso e músculos fracos contribuem para o aumento da velocidade e da gravidade do processo degenerativo nas juntas da coxa. Além deste tipo de cuidado é apropriado que se use medicamentos regeneradores articulares (em geral com Sulfato de Condroitina) disponíveis no mercado[1]. Além desses medicamentos, não há nenhum estudo que comprove que suplementos nutricionais auxiliam no tratamento de cães displásicos. De fato, as informações científicas obtidas indicam que o suplemento exagerado na alimentação do cão displásico com alimentos ricos em energia, vitaminas e minerais pode contribuir para a evolução do quadro de displasia .


Trabalhar ou não o cão

A decisão final que deve ser tomada é se deve-se ou não continuar o trabalho com o cão. A primeira preocupação que devemos ter é com o grau de conforto do cão durante e depois dos treinos. Se o cão fica ou não confortável durante as atividades não depende de raios-x, mas especificamente das articulações da coxa em si. Em muitos casos, a severidade da displasia identificada no raio-x não parece ter uma correlação muito alta com o desempenho que o cão é capaz de atingir durante o trabalho. Observação e avaliação cuidadosas do cão são os caminhos mais eficientes para determinar qual o seu nível de conforto.

Precisamos atentar também ao fato de que vários cães de trabalho são muito predispostos à realização de atividades, de forma que esses cães provavelmente não irão demonstrar um desconforto significante durante o trabalho. Nesses casos, é mais provável que o cão dê sinais de desconforto após a realização de atividades – particularmente nas primeiras 24 horas após um treino puxado. Esses sintomas podem incluir dificuldade em levantar após o descanso, relutância em subir escadas ou entrar no carro, o cão mancar ao andar ou saltar como uma lebre. Se nenhum desses sintomas forem notados durante ou depois do trabalho, é razoavelmente seguro dizer que o nível de conforto do cão está satisfatório. Na prática, não há como prever por quanto tempo esse quadro vai permanecer, mas, enquanto o cão demonstrar esse conforto, é razoável que ele continue a treinar e competir. Falando claramente: temos que estar conscientes que podemos investir tempo e energia consideráveis no treinamento deste cão e alguns problemas aparecerem na seqüência, mas, se esse é um risco que estamos dispostos a correr, dar continuidade ao programa de treinos é certamente aceitável.

Há um argumento de que altos impactos contínuos nas articulações displásicas podem acelerar o processo degenerativo dessas articulações. O outro lado deste argumento é que atividades contínuas e treinos ponderados fortalecem os músculos e melhoram a condição física geral do cão, levando a uma saúde relativamente estável das articulações. Minha experiência com cães displásicos têm mostrado que aqueles que se exercitam normalmente e são mantidos dentro do peso ideal são menos propensos a desenvolver problemas com dor do que aqueles cães inativos e acima do peso.

O treinamento de cães displásicos requer um bom julgamento no sentido de evitar ou no mínimo minimizar aquelas ações que irão estressar severamente as articulações da coxa. Essas ações podem incluir curvas em alta velocidade, assim como exercícios que requerem níveis elevados de flexão e extensão das articulações da região coxo-femoral, como saltar. Isso é particularmente importante para aqueles cães que tem um plano de treinamento, que deve ser estabelecido de forma a obter o máximo de benefício para o cão com um mínimo de atividades realizadas, já que a fadiga do cão aumenta drasticamente o risco de problemas.

Durante anos eu tenho testemunhado um número substancial de cães displásicos trabalhando confortavelmente, entusiasticamente e durante um longo período de tempo. É nossa responsabilidade, no entanto, iniciar um programa de trabalho com o cão estando consciente do grau de conforto do cão, assim como do fato de que a carreira de trabalho deste cão pode ser interrompida a qualquer momento. Como condutores e proprietários, temos a obrigação de não empurrar o cão para um nível de treinamento além do que lhe provém conforto.


Dr. Henry De Boer é o veterinário do Working K-9.

Seu envolvimento com cães de trabalho data da metade dos anos 60 quando ele começou a treinar e conduzir cães de caça. Em 1984 ele começou a se envolver com o Schutzhund e gradualmente elevou-se ao nível de competidor nacional.

Durante anos, De Boer tem trabalhado tanto com treinamento quanto na área de saúde com uma larga variedade de cães de trabalho.


[1] No Brasil, os nomes de alguns medicamentos com esse princípio ativo são: Cosequin, Artroglican, Condroton e etc...



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