|
Você
descobre que seu cão de agility tem displasia coxofemoral.
Instruído pelo veterinário, você espera
um mês e então tira outra chapa de raio-X.
No entanto, o veterinário acredita que a displasia
é mais severa do que se imaginava e que deve ser
considerada a hipótese de cirurgia. O que fazer?
Será o fim da diversão do agility para você
e seu cão? O Dr. De Boer, veterinário do Working
K-9 dá alguns conselhos.
Questão?
Meu cão fez recentemente as primeiras avaliações
de displasia e foi diagnosticada uma displasia moderada.
O que devo fazer? Interromper o trabalho feito com ele?
Resposta
Para qualquer um de nós que trabalha com raças
que são pré-dispostas à displasia,
essa notícia é, no mínimo, desanimadora.
No entanto, tendo lidado com essa questão incontáveis
vezes, há uma série de recomendações
que podem ser feitas a esses proprietários nessa
situação.
Uma segunda opinião
Em primeiro lugar, deve-se ter certeza de que o diagnóstico
feito através da radiografia está correto.
Se o veterinário que fez o diagnóstico é
de confiança, mas não é especialista
nessa área, uma boa idéia é consultar
um veterinário radiologista ou um veterinário
com experiência na leitura de chapas de raio-x. Raças
diferentes apresentam variações na articulação
da coxa e a menos que seu veterinário tenha familiaridade
com essas diferenças e experiência em analisar
chapas da região coxo femoral, há sempre a
possibilidade de que o quadro correto seja melhor (ou pior)
que o suspeitado. É importante ressaltar que graus
de displasia são uma avaliação subjetiva,
de forma que são comuns pequenas variações
de interpretação.
E depois?
Partindo do pressuposto de que a avaliação
da chapa de displasia foi correta, há uma série
de considerações que devem ser feitas. A primeira
delas é que este cão deve ser excluído
de qualquer tipo de programa de reprodução.
Se nós, como criadores, temos feito progressos no
sentido da redução da displasia, não
podemos descuidar desta questão e se esforçar
para gerar apenas ninhadas livres de displasia.
O segundo
ponto a ser explorado é a circunstância em
que devemos submeter esse cão a uma cirurgia. Há
um tipo de cirurgia que pode ser feita em cães displásicos
que vão ajudar a retardar o processo degenerativo
que tipicamente ocorre nesses quadros. A cirurgia é
a osteotomia triplo pélvica (triple pelvic osteotomy
- TPO) que vai ajudar muito alguns cães, particularmente
aqueles sem lesões degenerativas pré-existentes
nas articulações. Claramente a TPO não
muda a genética do quadro, mas pode prolongar o período
em que o cão vai viver livre de dor em virtude da
redução da velocidade do processo degenerativo.
No entanto,
submetendo ou não o cão a uma cirurgia, uma
série de cuidados devem ser tomados para atrasar
o início e minimizar os efeitos de futuros problemas.
Devemos manter os cães leves e com músculos
fortes. Excesso de peso e músculos fracos contribuem
para o aumento da velocidade e da gravidade do processo
degenerativo nas juntas da coxa. Além deste tipo
de cuidado é apropriado que se use medicamentos regeneradores
articulares (em geral com Sulfato de Condroitina) disponíveis
no mercado[1]. Além desses medicamentos, não
há nenhum estudo que comprove que suplementos nutricionais
auxiliam no tratamento de cães displásicos.
De fato, as informações científicas
obtidas indicam que o suplemento exagerado na alimentação
do cão displásico com alimentos ricos em energia,
vitaminas e minerais pode contribuir para a evolução
do quadro de displasia .
Trabalhar ou não o cão
A decisão final que deve ser tomada é se deve-se
ou não continuar o trabalho com o cão. A primeira
preocupação que devemos ter é com o
grau de conforto do cão durante e depois dos treinos.
Se o cão fica ou não confortável durante
as atividades não depende de raios-x, mas especificamente
das articulações da coxa em si. Em muitos
casos, a severidade da displasia identificada no raio-x
não parece ter uma correlação muito
alta com o desempenho que o cão é capaz de
atingir durante o trabalho. Observação e avaliação
cuidadosas do cão são os caminhos mais eficientes
para determinar qual o seu nível de conforto.
Precisamos
atentar também ao fato de que vários cães
de trabalho são muito predispostos à realização
de atividades, de forma que esses cães provavelmente
não irão demonstrar um desconforto significante
durante o trabalho. Nesses casos, é mais provável
que o cão dê sinais de desconforto após
a realização de atividades particularmente
nas primeiras 24 horas após um treino puxado. Esses
sintomas podem incluir dificuldade em levantar após
o descanso, relutância em subir escadas ou entrar
no carro, o cão mancar ao andar ou saltar como uma
lebre. Se nenhum desses sintomas forem notados durante ou
depois do trabalho, é razoavelmente seguro dizer
que o nível de conforto do cão está
satisfatório. Na prática, não há
como prever por quanto tempo esse quadro vai permanecer,
mas, enquanto o cão demonstrar esse conforto, é
razoável que ele continue a treinar e competir. Falando
claramente: temos que estar conscientes que podemos investir
tempo e energia consideráveis no treinamento deste
cão e alguns problemas aparecerem na seqüência,
mas, se esse é um risco que estamos dispostos a correr,
dar continuidade ao programa de treinos é certamente
aceitável.
Há
um argumento de que altos impactos contínuos nas
articulações displásicas podem acelerar
o processo degenerativo dessas articulações.
O outro lado deste argumento é que atividades contínuas
e treinos ponderados fortalecem os músculos e melhoram
a condição física geral do cão,
levando a uma saúde relativamente estável
das articulações. Minha experiência
com cães displásicos têm mostrado que
aqueles que se exercitam normalmente e são mantidos
dentro do peso ideal são menos propensos a desenvolver
problemas com dor do que aqueles cães inativos e
acima do peso.
O treinamento
de cães displásicos requer um bom julgamento
no sentido de evitar ou no mínimo minimizar aquelas
ações que irão estressar severamente
as articulações da coxa. Essas ações
podem incluir curvas em alta velocidade, assim como exercícios
que requerem níveis elevados de flexão e extensão
das articulações da região coxo-femoral,
como saltar. Isso é particularmente importante para
aqueles cães que tem um plano de treinamento, que
deve ser estabelecido de forma a obter o máximo de
benefício para o cão com um mínimo
de atividades realizadas, já que a fadiga do cão
aumenta drasticamente o risco de problemas.
Durante
anos eu tenho testemunhado um número substancial
de cães displásicos trabalhando confortavelmente,
entusiasticamente e durante um longo período de tempo.
É nossa responsabilidade, no entanto, iniciar um
programa de trabalho com o cão estando consciente
do grau de conforto do cão, assim como do fato de
que a carreira de trabalho deste cão pode ser interrompida
a qualquer momento. Como condutores e proprietários,
temos a obrigação de não empurrar o
cão para um nível de treinamento além
do que lhe provém conforto.
Dr. Henry De Boer é o veterinário do
Working K-9.
Seu
envolvimento com cães de trabalho data da metade
dos anos 60 quando ele começou a treinar e conduzir
cães de caça. Em 1984 ele começou a
se envolver com o Schutzhund e gradualmente elevou-se ao
nível de competidor nacional.
Durante
anos, De Boer tem trabalhado tanto com treinamento quanto
na área de saúde com uma larga variedade de
cães de trabalho.
[1] No Brasil, os nomes de alguns medicamentos com esse
princípio ativo são: Cosequin, Artroglican,
Condroton e etc...

|