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“Os campeões de beleza muitas vezes
são reprovados nas chapas de displasia”

Em sua palestra no KCSP, o Dr. Edgar Sommer falou sobre uma das doenças que mais acomete os cães brasileiros
por Adriana Mori
Para o Dr. Edgar Sommer parece claro. Filhotes que freqüentam as pistas de beleza devem ser grandes e por conseqüência, pesados. No entanto, suas articulações ainda não são fortes o suficiente para suportar todo esse peso. Conseqüência: a displasia, que poderia se manter maquiada, se manifesta. “Se for portador de gene, não tem como o cão se livrar da displasia, mas o que se pode fazer é evitar os sinais clínicos, ou seja, que o cão sinta dor”, explica o veterinário gaúcho, um dos maiores especialistas em radiologia veterinária do Brasil.

Percebendo a urgência de mais informações a respeito da displasia, o KCSP organizou em sua sede social uma palestra com o dr. Edgar no dia 22 de novembro, com apoio da Pedigree e que contou com aproximadamente 60 pessoas. Durante duas horas, o especialista falou sobre displasia coxofemural, enfermidade que acomete um grande número de cães no Brasil, além de responder à questão dos presentes, criadores, adestradores, veterinários e demais interessados.

A displasia (dis = mal, plasia = forma) coxofemural consiste na má formação das articulações coxofemurais. Pode acometer todas as raças, mas especialmente raças grandes de crescimento rápido e bem alimentadas, como o labrador, pastor alemão, rottweiler, bull mastiff e mastim napolitano, entre outras. Atinge igualmente machos e fêmeas“mas se eu tivesse de escolher, diria que afeta mais os machos, que crescem mais em uma velocidade maior”, ressalta.

Em 90% dos casos, a displasia coxofemural é bilateral, ou seja, acontece em ambos os lados. Os sintomas aparecem com maior freqüência entre os 4 e 7 meses de idade, eventualmente podem aparecer antes ou depois, mais normalmente é nessa faixa etária. Trata-se da fase aguda do processo, que depois entra em processo crônico de degeneração.O aparecimento desses sinais clínicos se dá devido à má formação que se instala nas articulações enquanto o animal está se formando.

Em função da displasia que se desenvolve nessa faixa etária, as articulações podem entrar em degeneração – clinicamente chamadas de artrose ou osteoartrose. A formação das articulação se dá, normalmente, até um ano de vida na maioria das raças, por isso a radiografia oficial é feita a partir dos doze meses de idade. “Depois dessa idade, teoricamente a doença não teria mais como aumentar. Fica naquele estado, o que pode acontecer é o animal desenvolver a parte secundária”, diz o dr. Edgar.

De olho na movimentação

O animal demonstra dor e em função dela começa a mancar (claudicação). Dependendo da intensidade da dor, pode se observar que alguns animais têm dificuldade de locomoção, procuram ficar mais quietos, sem se movimentar. “Proprietários comentam que aquele tem menos atividade que os demais cães da casa. Isso acontece porque ele sente dor e para evitá-la, ele - que não é bobo - fica em repouso, quietinho, deitado, pois se tentar se levantar sente dor”, explica o dr. Edgar. Às vezes, dói tanto que o cão não levanta nem para se alimentar. Outro sinal é quando ele se movimenta rebolando. Quando o animal caminha, a articulação estramela e é acompanhada de um processo doloroso, que faz com que a passada seja curta e rápida.

Se o cão apresentar crepitação nas articulações, suspeite. “Sabe aquele roc-roc que a articulação faz ao ser movimentada? Isso normalmente acontece porque os ossos que compõem a articulação têm a cartilagem articular lesionada, destruída de tal forma que osso cutuca com osso”, explica. Dependendo da intensidade da dor e do tempo que permanecerem sem se movimentar, o animal também pode sofrer atrofia muscular. “Dá para perceber uma ou duas patas do animal claramente atrofiadas quando o seguramos para fazer a radiografia”, diz o dr. Edgar. A atrofia se dá pela pouca utilização do membro. “O início de lesão ou de displasia fazem com que o animal use o membro de forma menos intensa”, explica. E ainda em decorrência da dor, o cachorro pode ficar mal humorado“afinal, não é fácil sentir esse incômodo 24 horas por dia”, ressalta o veterinário – e podem chegar a morder o próprio dono.

Como conseqüência da displasia, os cães podem apresentar ainda osteoartrose (processo degenerativo). “Se forçar a atividade física, o problema pode se agravar, pois é um processo evolutivo progressivo, ou seja, a tendência é sempre piorar”, alerta o veterinário. Além disso, é freqüentemente reportada com o conseqüência a displasia de cotovelo. “Quando o animal tem displasia coxofemural, ele tende a defender os posteriores e joga seu peso para os anteriores”, explica.

Aparências que não enganam

Uma articulação coxofemural normal apresenta a cabeça do fêmur com aspecto esférico, que se encaixa em uma estrutura côncava chamada cavidade acetabular. É nessa cavidade que a  cabeça do femur se encaixa. É possível observar extenso paralelismo entre os limites da cabeça do fêmur e cavidade acetabular, dessa forma o ligamento redondo (que liga o fêmur à cavidade acetabular) fica muito sossegado, porque não está sendo estressado.

O animal displásico apresenta deslocamento lateral da cabeça do fêmur para fora da cavidade acetabular. Dependendo do deslocamento, é fácil romper o ligamento redondo. Quando deslocada para fora, a cabeça do fêmur assume outra forma anatômica não mais esférica, podendo se assemelhar a um cogumelo, completamente achatada, e acaba trabalhando solta da cavidade acetabular.

O diagnóstico da doença só é feito de forma definitiva com radiografia. Clinicamente pode se ter uma idéia, que só será confirmada com radiografia em posição correta. Veja passo a passo os procedimentos tomados para se fazer uma radiografia:

1.     O animal é anestesiado ou profundamente sedado. “No Provet, optamos pela anestesia”, diz o dr. Edgar.

2.     Depois de anestesiado, o cão é colocado de barriga para cima em uma calha que auxilia o posicionamento correto.

3.     Com ajuda de um espessômetro, calcula-se o poder de penetração do raio X.

4.     Verificando-se o posicionamento horizontal da pelve, estender os membros e com auxílio de uma régua, confirma-se a horizontalidade da pelve.

5.     Palpação dos joelhos, para orientar quem segura os membros, do movimento medial (para dentro). Se o cão for displásico, a cabeça do fêmur sai em cima. A rotação deve ser feita de forma que a patela (rótula) fique na frente da articulação.

6.     Essa é a posição ideal, que será confirmada posteriormente pela qualidade da radiografia.

7.     A radiografia oficial deverá trazer a identificação com RG do animal, data de nascimento e data em que foi realizada a radiografia. 

A radiografia depende do bom posicionamento do animal. A pelve em posição horizontal, asa da anca com simetria e largura idênticas, canal pélvico simétrico e fêmures paralelos entre si e com a coluna vertebral indicam que a radiografia foi bem sucedida. A posição exigida, com a rótula na frente da articulação (prova de que o veterinário torceu, pois na radiografia toda a pelve e articulações do joelho ou na pior das hipóteses, a patela, devem estar bem visíveis) é incômoda e dolorida, por isso o animal é anestesiado.

Uma radiografia mal-feita pode fazer com que o cão displásico seja incluído na vida reprodutiva. Erros de posicionamento podem fazer com que a radiografia de um cão inapto não pareça tão ruim como realmente é. Depois que a radiografia é feita, ela é enviada para o CBRV (Colégio Brasileiro de Radiologoia Veterinária) para avaliação e emissão do laudo oficial. O CBRV é a única entidade nacional que emite laudos oficiais para displasia coxofemural.

Apto ou não apto?

De posse da radiografia, existem cinco classificações para as articulações.

NORMAL: Cabeça do fêmur bem encaixada dentro da cavidade acetbaular. Extenso paralelismo entre as linhas da cabeça do fêmur e cavidade acetabular. Centro da cabeça do fêmur para dentro da borda acetabular dorsal

QUASE NORMAL: O espaço entre a cavidade e a cabeça aumenta, a cabeça do fêmur  está sutilmente deslocada da cavidade acetabular

AINDA PERMITIDO: A fresta aumenta, o ligamento redondo passa a ser esticado e a  porção de encaixe diminui. A condição anatômica da cabeça do fêmur se altera, perde aspecto esférico e colo femural fica mais espesso e curto

MODERADA: O espaço aumenta bruscamente. A fresta é grande e a porção encaixada menor, o centro da cabeça de fêmur fica bem para fora do limite do teto da cavidade acetabular

SEVERA: A cabeça do fêmur perde totalmente o aspecto esférico e está bem fora da cavidade acetabular.

“O grande beneficiado por um controle efetivo de displasia são os criadores. Tenho percebido que criadores que  radiografam seus cães e retiram os displásicos da criação apresentam uma grande melhora na qualidade do plantel”, aconselha. Como cães displásicos podem ser filhos de pais normais, o aconselhável seria manter na reprodução apenas os cães com chapas normais.

Outras recomendações dizem respeito às formas de prevenção. “Os filhotes deveriam permanecer leves até os dez meses de idade, quando seus ossos estariam mais preparados para suportar mais peso”, diz. Além disso, o piso onde o cão vive pode piorar uma condição de displasia que o cão já teria em função da hereditariedade.

 

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